Posted by : Angie Dec 18, 2022

 


            O sol começava a surgir no horizonte à medida que a região de Galar voltava a acordar para mais um dia. O helicóptero preto de Team Yell rasgava o céu alaranjado da Wild Area. Gale sentava-se do lado direito, ocupando o lugar de piloto principal. Ao seu lado, à esquerda, Carter auxiliava a companheira de equipa, seguindo atentamente as suas ordens.

 

            - De volta à Wild Area para recarregar energias. – anunciava a rapariga sem tirar as mãos no volante e os olhos da paisagem à sua frente.

 

- É o melhor local para tal feito. – assentiu o outro.

 

- E se tentássemos aquelas coisas?

 

            Gale apontava para diferentes pilares de luz encarnada que se erguiam no ar. A energia à sua volta parecia condensar-se à medida que o helicóptero se aproximava do solo.

 

            - Queres infiltrar-te em Max Raid Battles de outros treinadores para treinares os teus Pokémon? – questionou Carter.

 

- Querido, acabaste de ler os meus pensamentos.

 

A gargalhada estridente de Gale encheu o interior do helicóptero, que se preparava agora para aterrar nos terrenos imensos da Wild Area. Carter esboçou um fraco sorriso, satisfeito por conseguir, finalmente, acompanhar os planos da colega.

 

• • •

 

Depois de passarem a noite em segurança no interior das suas tendas, Victor, Gloria, Bede e Marnie arrumaram o acampamento improvisado, dando início a mais um dia de aventuras. Naquele momento, o grupo atravessava Stony Wilderness, no sul da zona nortenha da Wild Area. Por ali, os montinhos de erva pareciam desenhar pequenos percursos no chão enquanto grandes rochas se apoiavam e curvavam umas nas outras, como se dançassem em sintonia enquanto o sol raiava no céu azulado.

 

- Onde é que tu vais?

 

A voz de Bede soava depois de reparar na figura de Victor, que deambulava de forma perdida entre arbustos que por ali se encontravam. O gémeo olhou em volta, como se estivesse a acordar do seu transe profundo.

 

- Ai. – murmurou, coçando o gorro na cabeça. – Tinha a cabeça ocupada.

 

- Demasiado distraído para não veres por onde andas? – provocou o platinado.

 

- Não dormi grande coisa. – o gémeo falava enquanto esfregava os olhos com as pontas dos dedos. – Não lhe contes nada, por favor.

 

Agora o seu olhar voltava-se para a figura de Gloria, que caminhava um pouco mais à frente na companhia de Marnie. As duas amigas andavam de forma distraída e animada, deixando os dois rapazes para trás.

 

- Não a queres preocupar com o que te vai na cabeça, é isso?

 

- Sim. – Victor respondeu prontamente.

 

- Como queiras. Não pretendo causar problemas.

 

- Obrigado. Já tenho preocupações suficientes.

 

- O que te preocupa, então? – Bede perguntou, fitando o rosto pálido do outro.

 

- Não saber onde anda o Hop. Se está bem ou não.

 

- Qual é o problema? Aposto que o irmãozinho do Leon está ótimo!

 

- Espero que tenhas razão. – falou entre dentes.

 

- Vocês viajavam juntos desde o início da vossa jornada, não era?

 

- Sim. E era suposto ser sempre assim.

 

- Talvez seja esse o problema. Estavam habituados à companhia uns dos outros. Mas isso não é assim tão bom como achas.

 

- Não comeces, Bede. Não me apetece discutir agora.

 

- Não quero discutir. Apenas quero expressar a minha opinião. Que, aparentemente difere com a tua. – o outro não respondeu, permanecendo em silêncio. – Qual é o mal em pensarmos de formas diferentes?

 

Victor nunca pensara sobre aquilo, mas o dilema apresentado por Bede parecia ser provido de algum tipo de sentido. Sem esperar, ouviu as palavras saírem da sua boca:

 

- Não há mal nenhum.

 

- Pois não. – o admirador de Fairy-Type esboçou um fraco sorriso. – Olha para mim. Desde o início que viajo de forma independente. Isso não quer dizer que me sinta sozinho. Agora tenho a Marnie para me fazer companhia. Mas sei que a qualquer momento cada um de nós pode seguir caminhos diferentes.

 

- Nós não funcionamos assim. – contrariou o gémeo.

 

- E porque não?

 

- Porque somos amigos! – exclamou, elevando ligeiramente o tom de voz. – E os amigos não se devem separar. É suposto estarem lá sempre. Nos bons e nos maus momentos. Sempre foi assim.

 

- As pessoas que têm amigos para sempre são muito privilegiadas. – apontou o platinado.

 

- Diz o que quiseres. – murmurou o jovem de Postwick. – Eu e os meus amigos somos inseparáveis.

 

- Só me parece que estás a deixar que isso te desconcentre de tudo o que está à tua volta.

 

- Achas que eu ainda não percebi isso?

 

- E já fizeste alguma coisa para tentares resolver esse problema?

 

- Eu não sei o que fazer. – a voz de Victor saiu mais fraca do que esperava.

 

- És estranho. – atirou Bede, deixando escapar uma gargalhada irónica que irritou o outro. – Parece que só sabes resolver os problemas que vêm descritos nesses livros que carregas na tua mala gigante. E depois ficas sem saber o que fazer com estes contratempos da vida real.

 

O gémeo sentiu o seu rosto contorcer-se, irritado com o comentário provocador do outro. Até àquele momento pensava que podia, finalmente, confiar em Bede que parecia mostrar uma atitude menos rígida e rancorosa do que o normal. Mas a sua postura habitual voltara à tona.

 

- Não me conheces. – cuspiu.

 

- Estou a tentar. – confessou, surpreendendo o outro.

 

- Estás só a gozar comigo. – Victor riu-se.

 

- Na verdade, queria ajudar-te a ver que essa tua atitude influencia os outros que estão à tua volta. Ontem deixaste a Gloria preocupada e colocaste o Toxel numa situação para a qual ele não estava preparado.

 

- O que tens tu a ver com isso!? – ripostou.

 

- Se queres que te ajude a treinar o Toxel, tens que me deixar ajudar-te primeiro.

 

Victor tentou contra-argumentar, mas a sua boca ficava mais seca à medida que a ansiedade tomava conta do seu corpo e da sua mente. Não queria admitir que o seu rival estava certo sobre si mesmo, mas precisava de se acalmar e reorganizar as suas prioridades. Engoliu em seco, sentido a garganta quente. Os seus olhos deixaram de fitar as pupilas roxas de Bede para encontrar o chão, baixando a cabeça com ar derrotado.

 

O gémeo não conseguia acreditar que Bede queria realmente ajudá-lo. Parecia difícil compreender o motivo pelo qual o seu principal rival desejava tanto auxiliá-lo a reforçar a sua equipa. Habitualmente, era Victor quem amparava os outros com os seus variados conhecimentos teóricos. E gostava bastante de o fazer. Sentia-se inteligente, prestável e útil, como se essa fosse a sua verdadeira vocação. Não estava habituado a que as pessoas fizessem isso por ele. Talvez esse fosse o problema.

 

Victor começou a sentir o corpo relaxar gradualmente ao mesmo tempo que um aroma peculiar invadia o local à sua volta. Era doce e fresco, fazendo os seus músculos descontraírem enquanto os pensamentos que o preocupavam se dissipavam no ar. Sem sequer dar conta, o seu olhar acompanhava os movimentos de uma criatura que adentrava a sua visão periférica.

 

Assente em duas finas pernas, a Pokémon de corpo rosa assemelhava-se a um pequeno mangostão. Usava uma saia branca curta na zona inferior do corpo, enquanto um pequeno caule verde segurava quatro folhas no topo da sua cabeça. Os minúsculos olhos amarelos da criatura fitavam as figuras dos dois rapazes que a observavam em silêncio.

 


O Rotom Phone apareceu na mão de Victor, que o apontou na direção da Pokémon, em busca de informações sobre a criatura desconhecida.

 

- Bounsweet, uma Pokémon Grass-Type. – falou a voz robótica. – O seu corpo emite um aroma relaxante para todos à sua volta. O suor produzido por Bounsweet é utilizado para criar sumo natural.

 

- Aqui está. – falou Bede. – A tua oportunidade para mostrares que consegues lidar com os problemas à tua volta.

 

- O quê? – o gémeo voltou-se para o platinado, com uma expressão confusa.

 

- Está na hora de começares a treinar o Toxel a sério.

 

O jovem assentiu e retirou uma Poké Ball do interior da sua mala, evocando o corpo do pequeno lagarto que apareceu no local com uma expressão ligeiramente confusa.

 

- Toxel, vamos aprender a combater contra adversários à nossa altura! – exclamou.

 

Gloria e Marnie voltaram-se para perceber toda a agitação que acontecia nas suas costas, encontrando um cenário de batalha improvisada no meio dos montinhos de erva.

 

- Quem é esta fofinha? – questionou a gémea.

 

- A nova rival do Toxel. – murmurava a jovem de Spikemuth. – Força!

 

- Nuzzle.

 

As pequenas faíscas saíram das bochechas do Electric-Type atingindo o corpo da criatura Grass-Type. Apesar do choque, as técnicas daquela espécie pareciam não ter grande impacto sobre si. Bounsweet começou a girar sobre o seu pequeno caule, dirigindo-se na direção de Toxel e atingindo-o com alguma força, fazendo-o cair no chão com Rapid Spin.

 

- Os ataques Electric-Type não têm grande efeito numa Grass-Type como a Bounsweet. – apontou Victor.

 

- Tenta explorar técnicas novas! – sugeriu Bede, ao seu lado. – O Toxel precisa de ser incentivado.

 

O gémeo assentiu, voltando a usar o Pokédex para procurar novas possíveis mecânicas que pudessem ser usadas pelo Pokémon. O rapaz observava atentamente a tela do ecrã, voltando-se a concentrar na batalha à sua frente.

 

- Toxel, consegues usar Growl? – perguntou, num tom complacente.

 

Os grunhidos da criatura bebé encheram o local e Bounsweet sentiu o seu poder de ataque diminuir gradualmente enquanto os rugidos do seu adversário a intimidavam. Mas a Grass-Type não estava pronta para baixar a guarda tão cedo. Fechou os olhos e as quatro folhas no topo da sua cabeça começaram a reluzir à medida que a Pokémon reunia a sua energia e fazia aparecer folhas brilhantes à volta do seu corpo. Quanto voltou a abrir as pequenas pupilas amarelas, o seu olhar penetrou a figura de Toxel, que se viu atingido pelas folhas mágicas que levitavam no ar com toda a força.

 

Toxel caiu para trás e cambaleou pelo chão, sentindo alguma terra entrar na sua boca. O seu corpo começava a formar alguns ferimentos, mas a sua personalidade caracterizava-se por ser dura e teimosa. Voltou a levantar-se e agora começava a sentir o seu corpo borbulhar no interior. Quando abriu a boca, cuspiu uma gosma arroxeada contra a figura da Grass-Type, que soltava grunhidos de dor.

 

- Acid. – murmurou Bede. – Aqui está. Era este o impulso que o Toxel precisava para desbloquear novos ataques.

 

- Não sabia que o podia fazer sozinho. – apontou Victor.

 

- Talvez ele se tenha sentido mais incentivado depois de tu lhe pedires para usar o Growl. – pensou Gloria. – Com uma nova técnica, vem sempre outra. – riu.

 

- Aos poucos, vais conseguir desbloquear todo o potencial do Toxel! – exclamou Marnie animada.

 

Ainda com resíduos de ácido espalhados pelo seu corpo, Bounsweet começou a saltitar e a girar à volta de Toxel, atacando o seu corpo com vários pontapés e cabeçadas habilidosas. O Electric-Type tentava esquivar-se às várias investidas, mas a criatura selvagem parecia tomada por uma força invisível.

 

- Flail ganha poder à medida que a energia do Pokémon diminui. – apontou o platinado.

 

- Isso quer dizer que a Bounsweet está cada vez mais fraca. – o jovem falou entre dentes, fechando o punho com força. – Vamos a isto, Toxel! Termina esta batalha com Acid!

 

Utilizando a vantagem do Poison-Type, a técnica voltou a atingir o corpo da Grass-Type que caiu redonda no chão. Toxel deixou escapar um pequeno grunhido de vitória, revelando a felicidade que sentia. Victor viu os seus olhares cruzarem-se. Pela primeira vez, sentia que a relação entre os dois podia funcionar.

 

O jovem de Postwick levou a mão ao bolso, encontrando uma Poké Ball que logo atirou contra o corpo desmaiado de Bounsweet. A esfera pousou no chão e vibrou três vezes antes de concluir a captura. As bochechas de Toxel fervilhavam de eletricidade com todo o orgulho que sentia naquele momento. Victor agachou-se, apanhando a cápsula do chão e ficando à altura do Pokémon.

 

- Obrigado pelo teu esforço. – afirmou, sorrindo para o bebé que esboçou um sorriso matreiro como resposta.

 

• • •

 

            No centro da zona norte da Wild Area, flocos de gelo caíam sobre os montinhos de erva de Dusty Bowl. O ar frio penetrava os caminhos infinitos do local enquanto diferentes Pokémon brincavam na neve que se começava a acumular nos ramos das árvores e no solo.

 

Hop e Sonia caminhavam lado a lado num passo acelerado, como se tentassem fugir ao frio que se fazia sentir no local. Os dois jovens usavam os seus casacos apertados e as cabeças estavam enfiadas em gorros de lã enquanto as mãos se escondiam entre os bolsos quentes das roupas.

 

- Por Arceus. Que frio é este? – a exploradora murmurou entre dentes.

 

- Não consigo perceber se estas mudanças de temperatura radicais são apenas características da Wild Area ou consequências do aquecimento global. – afirmava Hop, observando o cenário cada vez mais branco à sua volta.

 

- Uma coisa influencia a outra, com certeza.

 

Hop parou subitamente, deixando Sonia surpresa. A ruiva observava agora o moreno, que permanecia em silêncio com o olhar cravado nos flocos de neve que se acumulavam ao fundo dos seus pés. Os pensamentos do rapaz continuavam agitados há vários dias e ainda existiam questões na sua cabeça que permaneciam por responder.

 

- Sonia. Disseste que podia desabafar contigo sobre tudo.

 

- Certo. – assentiu.

 

- Há uma coisa que me está a incomodar sobre a história do Leon.

 

- O quê, exatamente?

 

- O papel de Rose no meio disto tudo. – afirmou. – O Leon explicou que não queria estar associado a um escândalo como este por causa do Gym Challenge. Terá o Rose alguma coisa a ver com isso?

 

- É claro que se fores um Treinador Pokémon associado a crimes ou episódios mais incomuns, as marcas podem deixar de ter interesse em patrocinar-te. E sabemos que isso é uma parte significativa na Pokémon League de Galar. – explicava. – O Leon sempre se preocupou com isso.

 

- E achas que ele contou aquilo que aconteceu ao Rose?

 

- Ótima questão. – a ruiva pensou antes de pensar. – Não sei. Talvez. Mas custa-me a acreditar que sim. O Leon sempre teve muito respeito pelo Rose. Demasiado até.

 

- Achas que o Leon tinha medo do Rose?

 

- Não diria medo. Mas uma grande admiração. Certamente, não o queria desiludir.

 

- Certo. – murmurou o mais novo, abanando a cabeça. – Por algum motivo, continuo a tentar encontrar alguma justificação para aquilo que o Leon fez.

 

- Não acho estranho. Afinal, ele continua a ser teu irmão.

 

- Isso não diminui a desilusão que sinto.

 

- A verdade é que nunca queremos ser o motivo de desilusão de outra pessoa. Não é?

 

Hop assentiu, em silêncio. O seu olhar voltava-se a perder no cenário esbranquiçado de Dusty Bowl. Agora os seus pensamentos abandonavam a figura de Leon e ganhavam a forma de dois gémeos que ele bem conhecia.

 

- Achas que o Victor e a Gloria estão desiludidos comigo?

 

- Claro que não! – respondeu de imediato. – Porque achas isso?

 

- Não sei. – encolheu os ombros. – Não consigo deixar de pensar que, de alguma forma, os abandonei. A verdade é que eles foram a minha companhia desde o início desta jornada. Custou-me imenso deixá-los.

 

- Eu sei que sim, Hop. – a mais velha aproximou-se, colocando a mão por cima do ombro do moreno, massajando-a. – Tenho a certeza de que nos encontraremos em breve. E poderás contar-lhes tudo o que vai aí dentro. – falou, apontando para a sua cabeça.

 

O jovem esboçou um fraco sorriso e tentou imaginar o reencontro com os dois gémeos. Por alguma razão, tal visão revelava-se difícil de antever. Passara demasiado tempo sem a companhia dos seus amigos. Por mais que não o quisesse admitir, sentia-se incompleto e diferente sem eles por perto.

 

As suas reflexões foram interrompidas quando o seu olhar encontrou uma pequena criatura que surgia entre os arbustos. O Pokémon arrastava-se pela neve de forma lenta, aproximando o seu rosto do chão. Parecia que gostava daquela atmosfera fria e gélida, ao contrário de outras criaturas que se escondiam em tocas ou fugiam para outros locais com temperaturas mais amenas.

 

- O que é aquilo? – murmurou, despertando a atenção de Sonia.

 

- Oh. Que pequenote. – falou numa voz doce.

 

O moreno remexeu o interior dos bolsos, pegando no seu Rotom Phone que continuava a operar apenas na funcionalidade de Pokédex.

 

- Swinub, um Pokémon Ice-Type e Ground-Type. – anunciou a voz robótica. – Esfrega o seu focinho no chão para encontrar comida. Quando deteta algum aroma, corre para encontrar a sua fonte.

 


A criatura assemelhava-se a um pequeno porco. O seu corpo era coberto por pelo castanho e comprido, que o aquecia no meio de toda a atmosfera gelada. No centro do focinho, existia um nariz redondo e rosa enquanto os seus olhos pareciam permanecer cerrados.

 

- Então é isso que ele está a fazer. – murmurou o rapaz. – A procurar comida.

 

- Espera. – Sonia apressou-se a abrir a sua carteira, procurando algo no seu interior. – Aqui está. Tenho algumas Oran Berries que o Skowvet encontrou.

 

- Podemos utilizá-las para o atrair.

 

- Boa ideia!

 

Sonia assentiu e passou algumas bagas azuis para as mãos de Hop. O rapaz agachou-se e lançou uma delas na direção do pequeno Swinub. A criatura de imediato se sentiu atraída pelo aroma, virando-se para encontrar a Oran Berry. O moreno aproveitou a oportunidade para lançar outra, desta vez deixando-a mais próxima da sua figura. O Ice-Type fitou a baga caída no chão, encontrando a figura de Hop logo atrás da mesma.

 

- Olá, fofo. – sorriu ele.

 

Swinub não se deixou intimidar. Uma pequena linha surgiu entre o seu pelo, no lugar da sua boca. O Pokémon sorriu na direção do rapaz, arrastando-se na direção da Oran Berry e comendo-a.

 

- Parece que ele gostou de ti. – apontou Sonia, observando os dois atentamente.

 

Hop levou uma mão até à criatura, afagando o topo da sua cabeça. Swinub respondeu com um grunhido carinhoso, deixando que o rapaz continuasse a tocar-lhe. Os dois envolveram-se naquele momento especial. Enquanto isso, Sonia olhava à sua volta, observando o local com atenção.

 

- Que querido. – murmurava o moreno, enquanto Swinub farejava a sua mão.

 

- Hop. – chamou a ruiva. – Eu acho que o Swinub está sozinho. Daí aceitar a nossa comida tão prontamente.

 

- Coitadinho! – exclamou. – Devia estar esfomeado. Onde estão os teus amigos?

 

O Ice-Type levantou os olhos na direção do rapaz, revelando uma expressão que Hop reconhecera de imediato. A tristeza que se refletia no rosto do Pokémon era a mesma que o jovem sentia há vários dias. Por alguma razão, o facto de perceber que não era o único a sentir-se perdido fê-lo sentir-se menos sozinho.

 

- Acho que acabou de os encontrar. – murmurou a jovem, esboçando um pequeno sorriso.

 

Hop assentiu. Levou a sua outra mão até à sua mala e pegou numa esfera vazia, colocando a Poké Ball à frente da pequena criatura.

 

- Se tu estás sozinho e eu também estou sozinho… porque não te juntas a mim? Podemos ser amigos.

 

Swinub fitou a cápsula bicolor à sua frente, voltando o olhar para o rosto sorridente de Hop. As palavras do humano pareciam ecoar no interior do cérebro da criatura, que se voltou para a frente, pressionando o botão no centro da esfera com o pequeno nariz. O seu corpo transformou-se em luz encarnada que regressou para o interior do objeto. A captura foi concluída de forma imediata e Hop não conteve um sorriso que revelava os seus dentes desalinhados.

 

- Obrigado. – murmurou, pegando na Poké Ball caída na neve. – Não te vou desiludir.

 

• • •

 

            O dia já ia a meio. Gloria e Marnie exploravam a localidade de Giant’s Mirror em busca de Berries para cozinharem Curry, o almoço do grupo. Victor e Bede tinham ficado para trás, preparando o piquenique para todos.

 

            Apesar do céu nublado e dos trovões que se faziam ouvir, as duas raparigas exploravam o local com curiosidade. Corriam pelo solo arenoso e passeavam à beira do grande lago, trepavam algumas árvores e colhiam bagas de diversas cores de arbustos rasteiros.

 

Enquanto Marnie e Morpeko enchiam a sua cesta de verga com alimento, Gloria concentrava-se na figura de um Pokémon selvagem que surgira entretanto. Com a ajuda de Dottler, enfrentava a criatura numa batalha acesa.

 

Um pequeno lagarto de corpo amarelo fitava o rosto da jovem de Postwick com os seus olhos grandes e azuis. A cabeça da criatura era redonda e o rosto era preenchido por um sorriso rasgado. Duas orelhas extensas eram coloridas de preto, a mesma cor das extremidades do seu corpo.

 


- Helioptile, um Pokémon Electric-Type e Normal-Type. – anunciou o Rotom Phone de Gloria. – As extensões no topo da sua cabeça funcionam como painéis solares, permitindo o armazenamento de eletricidade que gera a energia de Helioptile.

 

Naquele momento, o lagarto soltava um Thunder Shock que atingira o corpo de Dottler. Graças à sua defesa cada vez mais fortalecida, em parte graças ao uso das técnicas Reflect e Light Screen, o Bug-Type não estremeceu, sentindo o seu corpo despertar com a descarga elétrica.

 

- Confusion.

 

O seu olhar iluminou-se de encarnado e, do outro lado, Helioptile sentiu o seu corpo elevar-se no ar. O lagarto tentou soltar-se, disparando Mud-Slap na direção do Psychic-Type, mas a força deste era superior e os jatos de lama acabavam por ser lançados em direções contrárias. Dottler soltou um grunhido, deixando o corpo da criatura selvagem cair no chão com força.

 

Helioptile remexeu-se no solo. Agora apoiava-se nas suas pernas e braços, observando o solo arenoso por baixo de si em silêncio. Num salto, levantou os braços no ar e voltou a bater com eles no chão, soltando um forte grunhido. A pancada fez o solo estremecer e várias rochas atingiram o corpo de Dottler. Buldoze surpreendera Gloria, que observava a disputa com cada vez mais atenção e interesse.

 

- Esse pequeno tem bons truques. – comentava Marnie, aproximando-se com Morpeko ao ombro e a cesta de verga na mão.

 

Gloria assentiu em silencio, concordando com a afirmação da amiga. Naquele momento, Helioptile voltava à ação, desta vez atacando com recurso a Quick Attack.

 

- Struggle Bug.

 

O corpo de Dottler iluminou-se de encarnado enquanto a energia era reunida. À frente dos seus olhos, uma aura começava a surgir, sendo arremessada na direção de Helioptile, que se aproximava cada vez mais para o derradeiro embate. A técnica Bug-Type revelara-se mais forte do que a investida Normal-Type. O corpo do lagarto amarelo foi lançado contra uma rocha e a criatura deixou escapar um grito de dor.

 

Gloria estremeceu ao ouvi-lo e correu na sua direção. Os seus olhos permaneciam fechados e o rosto do Pokémon transmitia dor e agonia.

 

- Ele está bem? – perguntava Marnie, alguns metros mais atrás.

 

- Vai ficar.

 

A gémea levou a mão até à sua bolsa, resgatando uma Poké Ball do seu interior. Aproximou a esfera ao corpo da criatura, tocando no seu corpo com o botão central. Helioptile transformou-se em luz encarnada que se transferiu para o interior da cápsula esférica. A Poké Ball agitou-se na palma da mão de Gloria, até concluir a captura com sucesso.

 

- Não sabia que querias fazer novas capturas. – apontava Marnie, quando a outra se preparava para voltar à estrada.

 

- Nem eu. – encolheu os ombros. – Mas fiquei impressionada com a força do Helioptile. E preciso de reforçar a minha equipa.

 

- Gosto da forma leviana como segues a tua jornada. Parece que nada te incomoda.

 

- Oh. – soltou. – Achas mesmo?

 

- Claro! – exclamou. – Gostava de ser mais descontraída como tu. Estou sempre preocupada com aquilo que o meu irmão pensa de mim.

 

- Irmãos… - murmurou Gloria. – Sei o que dizes.

 

- O Victor também te chateia?

 

- Não. Mas eu preocupo-me com ele. Apesar de não parecer, aparentemente. – afirma. – Eu sei que a partida do Hop o deixou um pouco sem rumo.

 

- Ele está habituado a ter tudo sob controlo, não é?

 

- Sim. – assentiu. – Não de uma forma má. O Victor é apenas extremamente organizado. Sabe perfeitamente para onde quer ir e aquilo que tem de fazer para chegar até lá. Não podíamos ser mais diferentes.

 

Marnie parou de caminhar, voltando o corpo para o lado e encarando a figura de Gloria.

 

- O que queres dizer? – perguntou, com uma expressão séria, mas curiosa.

 

- Não sei… - murmurou. – Às vezes sinto que não estou a fazer aquilo que gosto realmente.

 

- Não gostas de Pokémon!? – gritou a jovem de Spikemuth.

 

- Não! Obviamente que gosto! – contrapôs a outra de imediato, levantando as mãos no ar. – Mas a forma como o Gym Challenge funciona… às vezes parece tudo demasiado. Percebes?

 

- Acho que sim. – concordou. – Sinto-me sempre ansiosa e nervosa quando me estou a preparar para um novo desafio. E toda a grandiosidade que sentes no interior dos estádios… é… muita pressão.

 

- Pensava que era a única a sentir-me dessa maneira.

 

- Não és. – fez uma pausa antes de continuar. – Mas, no final, tudo vale a pena, não? O sentimento de vitória e a alegria dos Pokémon…

 

- Não sei. – murmurou, abanando a cabeça. – Às vezes penso em tudo aquilo que podia estar a fazer em vez de enfrentar Líderes de Ginásios e combater Pokémon gigantes.

 

Marnie deixou escapar uma pequena risada.

 

- Vá lá, Gloria. Tu és super curiosa. – afirmou. – Conhecer sítios diferentes e enfrentar estes desafios imprevisíveis torna-te numa pessoa muito mais rica e completa.

 

- Talvez, sim…

 

- Mas também acho que tens oportunidade para explorares outros interesses pessoais. É uma questão de equilíbrio, na verdade.

 

- Tens razão. – disse, esboçando um fraco sorriso. – Obrigado por me ouvires.

 

- Sempre aqui, amiga! – exclamou Marnie, envolvendo a gémea num abraço apertado. – Agora vamos, os rapazes devem estar esfomeados.

 

- Eu estou de certeza. – e riu, de forma descontraída, com a certeza de que, dali em diante, iria dar mais atenção aos seus interesses curiosos.

 

• • •

           

            Hop e Sonia corriam entre os campos de Dusty Bowl. Naquele momento, os flocos de gelo que caíam do céu começavam a abrandar e a neve no solo parecia derreter lentamente. Os dois jovens precipitavam-se em direção a um poste de luz encarnada que ganhava cada vez mais destaque no horizonte entardecido da Wild Area.

 

            Pararam à volta da pequena erupção no solo de onde a energia Dynamax eram expedida. Os olhos da ruiva eram curiosos, contrastando com os do moreno que revelavam uma ligeira hesitação.

 

            - Tens a certeza de que isto é seguro? – murmurou.

 

            - Sim! – exclamou. – Eu sei que não sou realmente uma Treinadora Pokémon, mas participar numa Max Raid Battle só pode trazer experiências positivas. Na verdade, a primeira vez que participei numa foi com o Leon e o Raihan.

 

- Velhos tempos. – comentou o rapaz. – Como é que isto se faz?

 

- Anda cá.

 

Sonia pegou na mão de Hop, o que fez com que as bochechas do mais novo corassem ligeiramente. A exploradora conduziu as duas mãos até ao pilar de luz, que reluziu com intensidade. Os dois jovens sentiram os seus corpos ficarem dormentes e, depois de tudo ficar escuro durante rápidos segundos, voltaram a sentir os seus corpos, desta vez num cenário completamente diferente do anterior.

 

Encontravam-se num descampado de terra com uma atmosfera escura e pesada ao seu redor. Diversas nuvens vermelhas, roxas e azuis sobrevoavam o local enquanto um zumbido tomava conta do silencio à sua volta. Atrás dos dois, o raio de luz dirigia-se agora para cima, onde se encontrava uma fenda no céu.

 

- Então… - a voz de Hop saiu rouca. – Estamos dentro de uma Max Raid Battle?

 

Sonia assentiu, penteando os seus fios de cabelo ruivos e ajeitando a roupa.

 

- Estás bem? – perguntou.

 

- Acho que sim. – o mais novo olhou em volta. – Mas isto é… estranho.

 

- Sim. É uma espécie de Wild Area invertida, mais sombria e… ligeiramente assustadora.

 

Hop concordou. O seu olhar passava agora por cima do ombro de Sonia, concentrado-se em duas figuras mais à frente que permaneciam de pé. As suas cabeças estavam voltadas para cima, na direção das nuvens de energia.

 

- Aqueles são…

 

Os rostos dos outros dois indivíduos voltaram-se para trás. Hop e Sonia estremeceram ao reconhecerem as caras de Carter e Gale. Os dois coordenadores da Team Yell pareciam igualmente surpresos por reencontrarem o jovem treinador que várias vezes ameaçara os seus planos.

 

- Estás perdido, miúdo? – a voz estridente de Gale surpreendeu Sonia, que até ao momento nunca conhecera os dois criminosos pessoalmente.

 

- Vocês… vocês são aqueles tipos da Team Yell que interromperam a cerimónia de abertura do Gym Challenge! – exclamou, voltando-se para Hop. – São eles, não são?

 

- Sim. Os mesmos que atacaram o Pokémon Nursery na Route 5 e bloquearam a passagem na Galar Mine Number 2. – relatava Hop, recordando os episódios na sua mente.

 

- A reputação persegue-nos. – gritou Carter, de boca cheia. – E quem és tu, miúda?

 

- O meu nome é Sonia. – a sua voz saiu rouca. – O que estão aqui a fazer!?

 

- Hoje os nossos planos não passam por atacar Treinadores Pokémon estúpidos. – cuspiu a rapariga com o rosto pintado. – Estamos apenas à procura de desafios nas Max Raid Battles da Wild Area.

 

- Ouviram bem. Esta não é a primeira em que participamos hoje. – gabou-se o homem.

 

- Do que andam à procura!? – atirou Hop.

 

- De poder. – gargalhou Gale. – Treinamos os nossos Pokémon para ficarmos mais fortes e podermos enfrentar-te a ti e aos teus amiguinhos.

 

- Por falar nisso… onde estão os outros dois?

 

- O Victor e a Gloria não são para aqui chamados! – defendeu Sonia. – Vocês deviam ter vergonha na cara! Os vossos atos geram consequências para todos à vossa volta, sabiam?

 

- Claro que sabemos. É por isso que o fazemos! – riu Carter.

 

- Que mal fizeram os jovens que participam no Gym Challenge? Parem de os atacar! – a ruiva segurava uma expressão cada vez mais séria e rancorosa.

 

- Eles estão na base do problema. – afirmava Gale, num tom sério e misterioso. – São eles que originam tudo isto. – afirmou, abrindo os braços.

 

- Mas estão a falar do quê, raios!? – Hop começava a perder a controlo.

 

Um rugido cortou o ar, interrompendo a discussão dos presentes. Carter e Gale voltaram a dirigir a sua atenção para o céu negro e Hop e Sonia fizeram o mesmo, observando com atenção o vulto que se formava atrás das nuvens de energia.

 

- Chegou. – murmurou Gale.

 

Um abutre gigante apareceu a sobrevoar os corpos dos quatro jovens. A sua cabeça rosa dava espaço a um bico negro grande e bicudo, enquanto o seu olhar encarnado penetrava atentamente as figuras humanas. O tufo no topo da cabeça da criatura era apanhado com um osso, enquanto as penas ao longo do seu corpo se coloriam em tons escuros e beges. As suas patas nuas e rosas eram compostas por três presas fortes e afiadas, que agora encontravam o solo, onde pousava de frente para o grupo que fitava a criatura com desconfiança.

 


Atónito, Hop segurou o Rotom Phone na direção da criatura Dynamax.

 

- Mandibuzz, uma Pokémon Dark-Type e Flying-Type. – a voz robótica preencheu o local. – Mandibuzz são a figura maternal de Vullaby, cuidando das suas crias até estarem prontas para abandonar o ninho. O osso no topo da sua cabeça parece variar com as diferentes tendências da moda.

 

A criatura voadora voltou a soltar outro grunhido. Agora os seus olhos encarnados enfrentavam as quatro figuras humanas. Abriu as suas asas gigantes no ar, numa forma de demonstrar o seu poder. Parecia estar pronta para o combate.

 

Carter e Gale apressaram-se a lançar duas Poké Balls ao ar, revelando as figuras de Sableye e Purrloin, respetivamente. Enquanto Hop procurava as suas Poké Balls na mala, Sonia parecia debater-se com os seus pensamentos.

 

- Vamos… mesmo fazer isto? – questionou.

 

- Não foste tu que disseste que participar numa Max Raid Battle só iria trazer coisas positivas?

 

- Mas… eu não me referia a uma Max Raid Battles com eles ao nosso lado. – murmurou, voltando o olhar para os dois coordenadores da Team Yell.

 

- É o que temos. – o moreno encolheu os ombros, pegando finalmente numa esfera bicolor.

 

- Tem cuidado. – pediu a mais velha. – Não confio neles.

 

- Nem eu.

 

- Vamos a isto, ou quê!? – gritou Carter.

 

- Estão a ficar com medo agora!? – provocou Gale.

 

Sonia revirou os olhos e retirou uma Poké Ball da sua carteira. Depois de voltar a dirigir o olhar para Hop, os dois lançaram as esferas ao ar em simultâneo. À frente do moreno, Wimpod arrastava o seu corpo pelo chão, enquanto Yamper se segurava nas quatro patas.

 

Mandibuzz Dynamax deu início ao confronto, batendo as grandes asas com força e invocando um forte Max Airstream que não deixou escapar ninguém. As fortes rajadas de vento arrastaram os quatro Pokémon para trás, obrigando-os a usarem toda a força para não saírem disparados pelo ar.

 

- Recompõe-te! – a trabalhadora da Team Yell gritava para a Pokémon. – Ataca com Fake Out.

 

- Night Shade! – vociferou o outro.

 

- Wimpod, usa Struggle Bug.

 

- Spark, Yamper!

 

Purrloin saiu na frente do grupo, batendo as palmas das suas patas e provocando uma pequena onda de choque que atingiu a criatura gigante. Atrás de si, Sableye iluminava os seus olhos de encarnado, disparando dois raios de energia contra o corpo da adversária, enquanto Wimpod invocava uma esfera de energia e a lançava para o outro lado do campo de batalha e Yamper disparava uma esfera de eletricidade contra a Flying-Type.

 

A criatura Dynamax deixou-se atingir pelos ataques dos quatro desafiantes. Na sua maioria, eram fracos e inofensivos, com exceção do Pokémon de Sonia, que provocava danos mais sentidos devido à vantagem de tipo.

 

Mandibuzz voltou a soltar um grunhido, batendo com as suas patas no chão e provocando a técnica Max Rockfall. Uma extensa parede rochosa elevou-se no ar, caindo por cima das quatro criaturas que se viram perdidas entre os vários destroços rochosos que agora ocupavam o campo de combate. Ao mesmo tempo, uma tempestade de areia instalava-se na atmosfera da batalha, atacando todos os envolvidos.

 

- Vocês estão bem!? – perguntou Hop, num tom preocupado.

 

- É claro que estão. – contrapôs Gale.

 

- Vamos continuar! – exclamou Carter com um olhar concentrado.

 

- Se queremos mesmo vencer este confronto, então também devemos utilizar o Dynamax do nosso lado. – defendeu Sonia.

 

            - Não contem connosco para isso. – afirmou a coordenada da Team Yell.

 

- Nós não temos Dynamax Bands. – relembrou o homem.

 

- Parece que a decisão é entre nós os dois. – Sonia voltou-se para Hop.

 

- Eu nunca usei o Dynamax. – murmurou o mais novo.

 

- Fá-lo agora! – exclamou a ruiva.

 

-D-de certeza? – questionou, hesitando.

 

- Sim! Acredita em ti!

Hop assentiu e retrocedeu o corpo de Wimpod para o interior da sua Poké Ball. Logo a seguir, pressionou o topo da Dynamax Band que usava ao pulso, sentindo a energia no seu interior remexer-se, ganhando vida. A cápsula na sua mão aumentou de tamanho e quando Wimpod voltou à superfície, o seu corpo estava gigante e as suas proporções eram ridiculamente grandes. O moreno utilizou o Pokédex para consultar as alterações realizadas, antes de voltar a atenção para a sua frente, encarando Mandibuzz do outro lado do recinto.

 

- Vamos a isto! Max Flutterby.

 

O corpo de Wimpod começou a reluzir à medida que várias orbitas reluzentes eram criadas à volta do seu corpo. As esferas de energia acabaram por explodir, revelando a figura de múltiplas borboletas que atacaram o corpo de Mandibuzz Dynamax. A Flying-Type estremeceu pela primeira vez, sentindo o seu corpo ser invadido por um poder mais forte do que anteriormente.

 

A ave abriu o seu grande bico, concentrando a energia numa esfera de luz conhecida como Max Strike.

 

-  Max Guard!

 

Yamper, Sableye e Purrloin precipitaram-se para trás da figura gigante de Wimpod, que invocara uma barreira de proteção, protegendo todos os desafiantes do ataque invocado por Mandibuzz. Esta, por sua vez, voltava a bater as asas no ar, começando a esvoaçar sobre as cabeças dos restantes. Parecia irritada por ver a sua técnica bloqueada e sem qualquer efeito.

 

- Precisamos de voltar a atacar. – defendeu Sonia. – Nuzzle.

 

- Sableye, usa Shadow Sneak!

 

- Fury Swipes, Purrloin.

 

As faíscas elétricas de Yamper atingiram a figura voadora de Mandibuzz, assim como a sombra assustadora de Sableye. Por sua vez, Purrloin escalava no corpo de Wimpod para se aproximar do seu alvo. Quando saltou no ar, na direção Mandibuzz, a critura Dynamax preparava-se para atacar com Max Darkness. O seu corpo expulsou uma energia negra, acompanhada de nuvens obscuras, que atingiram a figura da pequena gata.

 

Purrloin caiu redondo no chão. Os seus músculos estavam fracos graças ao forte embate sentido. Gale, por sua vez, tentava manter um rosto firme e uma voz severa, enquanto gritava.

 

- Levanta-te! Não vamos perder agora!

 

Mas a criatura não reagiu. Carter voltou-se para encarar a companheira, que permanecia agora de braços cruzados, numa posição de defesa. Demonstrar qualquer tipo de vulnerabilidade não era possível para a coordenadora da Team Yell.

 

- Gale… eu acho que…

 

- Não. – cortou. – Não digas nada. Não penses nada. – vociferou, com os olhos colados na figura de Purrloin. – Eu conheço o potencial dos meus Pokémon.

 

- Levanta-te! – exclamou Hop, tentando transmitir incentivo à criatura. – Não podemos seguir sem um dos nossos!

 

- Força, Purrloin! – gritou também Sonia.

 

Um brilho iluminou o corpo da criatura. Os seus membros começaram a crescer à medida que os seus músculos ganhavam força e resistência. Quando a luz cessou, a figura de um grande leopardo ganhava forma, movimentando-se de forma majestosa. O seu pelo roxo era decorado com um padrão amarelo. Os olhos verdes da criatura penetravam Mandibuzz, que agora já se encontrava pousado no solo, mesmo à sua frente. A máscara rosa que circulava os olhos do leopardo dava-lhe um ar misterioso e ameaçador, enquanto a sua comprida cauda se contorcia. Ao longo do pescoço e na parte inferior das suas patas, o seu pelo era acastanhado, dando um ar mais elegante à criatura.

 


- Liepard, um Pokémon Dark-Type. – afirmava o Pokédex que Sonia segurava. – A sua beleza e elegância escondem o temperamento e crueldade desta criatura. Consegue correr de forma ágil e surpreender os seus adversários sem emitir qualquer som.

 

- Como eu disse, eu sei qual é o verdadeiro potencial dos meus Pokémon. – a voz de Gale saiu firme, esboçando um sorriso rasgado na direção de Carter.

 

- Parece que sim. – concordou o outro.

 

- Vamos acabar com isto! – exclamou Hop.

 

- De uma vez por todas. – assentiu Sonia. – Spark!

 

- Knock Off, Sableye.

 

- Querido Liepard… está na hora de mostrares o teu poder com essas garras majestosas. Scratch!

 

A mão de Sableye começou a reluzir à medida que este corria na direção de Mandibuzz, atacando-o com o membro brilhante. Liepard surgiu atrás da criatura Dynamax, surpreendendo e arranhando o seu corpo com um forte e profundo arranhão. A ave deixou escapar um grunhido de dor e Gale cerrou o punho, sentindo a vingança finalmente ser servida. Yamper, mais atrás, voltava a lançar a sua esfera elétrica contra o corpo do Flying-Type, que se deixou atingir pela técnica super-efetiva. A sua energia começava a esgotar-se e, vendo-se cercada pelas três criaturas, a Pokémon começava a perder a esperança.

 

- Max Flutterby.

 

Wimpod obedeceu à indicação de Hop. Múltiplas borboletas voltaram a atacar o corpo do abutre gigante, que sentiu o seu corpo ir abaixo, mergulhando no solo térreo da Max Raid Battle, que chegava agora ao fim. A gigante Mandibuzz estava finalmente inconsciente.

 

- Muito bem! – exclamou Sonia, abraçando o corpo de Hop. – A tua estreia com o Dynamax foi brilhante!

 

- Isto foi intenso. – afirmou, voltando o olhar para as figuras de Carter e Gale.

 

Os dois funcionários da Team Yell aproximavam-se dos seus Pokémon. Carter assentiu na direção de Sableye, voltando o seu corpo para o interior da esfera bicolor. Ao seu lado, Gale afagava a cabeça de Liepard, que se curvava perante a maestra. Parecia demonstrar algum tipo de respeito para consigo. A seguir, a rapariga resgatou o corpo da Dark-Type para o interior da cápsula.

 

- Não estiveram mal. – vociferou Carter, numa voz mais ríspida.

 

- Vocês também não. – admitiu Hop.

 

- Belo Liepard. – apontou Sonia.

 

- Eu disse que queria poder. – relembrou Gale. – E assim foi.

 

- Espero que o utilizem para o bem. E parem de atacar jovens inocentes, como fizeram comigo e com os meus amigos. – defendeu o moreno.

 

- Participar numa Max Raid Battle juntos não muda os nossos planos, miúdo. – cortou a mulher.

 

- Nada nos pode travar! – riu Carter.

 

            Os dois funcionários da Team Yell não perderam mais tempo. Precipitaram-se na direção da coluna de energia, desaparecendo por ali acima sem deixar rasto, apenas o cenário de uma disputa acesa e renhida.

 

            - Bom… pelo menos não nos tentaram atacar. – murmurou Sonia.

 

• • •

 

            Bede estava no topo da colina de Hammerlocke Hills. Atrás de si, Victor, Gloria e Marnie observavam a disputa atentamente. Daquele ponto tinham acesso a uma panorâmica privilegiada do norte da Wild Area. Grandes mantos de relvado confundiam-se com solos rochosos, tempestades de areia e lagos que refletiam o céu encarnado do final da tarde.

 

À frente do platinado, a figura de Cutiefly batia as asas, esvoaçando elegantemente pelo ar enquanto enfrentava uma criatura selvagem. O seu corpo era branco e minúsculo, onde existiam dois grandes olhos escuros. O Pokémon segurava-se em três raízes que funcionavam como pés e no topo da sua cabeça surgiam três grandes cogumelos arroxeados.



- Morelull, uma Pokémon Grass-Type e Fairy-Type. – anunciava o Pokédex do jovem. – Os cogumelos no topo da cabeça de Morelull são utilizados para alimentar outros Pokémon. Estes regeneram-se durante a noite e também servem como escudo de proteção de possíveis ameaças.

 

Cutiefly atacava com Fairy Wind e Morelull deixava-se atingir pelas brisas brilhantes. Logo a seguir, os seus cogumelos começaram a cintilar e a criatura concentrou-se em recuperar a sua energia fitando a figura da lua, que começava a ganhar cada vez mais força no horizonte entardecido. Moonlight restaurava a energia perdida de Morelull.

 

- Stun Spore.

 

Os poros paralisantes lançados por inseto voador não pareciam atingir Morelull, que se esquivava com a ajuda das suas pernas em forma de raiz e contra-atacava com Confuse Ray. Múltiplas esferas roxas contornaram o corpo do Grass-Type, sendo de seguida disparadas contra Cutiefly. Depois de atingida, a Pokémon sentia a sua cabeça zonza e confusa. Bede cerrou o punho, esboçando um sorriso matreiro.

 

- Tem cuidado. – falou Victor. – Se a Cutiefly está confusa, pode acabar por se magoar a si própria.

 

- Não se preocupem. Nós gostamos de desafios. – respondeu, voltando o olhar para a criatura do outro lado do local. – Parece que estás à nossa altura. – sorriu.

 

O platinado levantou e braço e Cutiefly disparou na direção de Morelull, depositando um beijo sobre o seu corpo. O Grass-Type iluminou-se enquanto a sua energia era transferida para a figura do inseto voador, que recuperava a sua energia e reestabelecia as suas capacidades.

 

Astonish foi a técnica utilizada por Morelull, que aproveitou a proximidade da adversária e a assustou, com um grunhido e expressão fantasmagórica. Cutiefly estremeceu e sentiu o seu corpo ser invadido por uma onda eletrizante. Naquele momento, as asas do Bug-Type começavam a bater de forma mais lenta e arrastada.

 

- O que está a acontecer? – perguntava Marnie, atónita.

 

- Parece que a Cutiefly ficou paralisada. – afirmou Bede, fitando o corpo de Morelull com atenção, voltando a apontar o Rotom Phone na sua direção.

 

- Effect Spore é a habilidade de Morelull. – falou o robô. – Quando entra em contacto com outros Pokémon, pode causar danos como envenenamento, paralisia ou sonolência.

 

- E agora? – questioanava Gloria.

 

Ao seu lado, Victor fitava a expressão de Bede com atenção.

 

- Não vamos desistir agora. Sabemos que a Morelull está à nossa altura. E agora queremos que ela faça parte da nossa equipa! – anunciou, voltando a levantar o braço. – Struggle Bug.

 

Cutiefly tentou concentrar a sua energia, mas a paralisia que se infiltrava pelos seus músculos parecia ser mais forte. Do outro lado, Morelull preparava Mega Drain. As suas raízes começaram a brilhar enquanto do corpo de Cutiefly eram resgatadas bolas de energia que regressavam ao corpo da Grass-Type. Ao mesmo tempo que Morelull recuperava energia, Cutiefly perdia-a.

 

Bede baixou a cabeça, encarando o chão. Pela primeira vez, sentia que estava prestes a perder um desafio e a deixar escapar um companheiro entre as mãos. Sentiu um calor no seu ombro e levantou o seu olhar para encontrar a mão de Victor. Os seus olhos roxos encontraram os castanhos do outro rapaz.

 

- Vá lá. – murmurou. – Não vais baixar a guarda agora, pois não?

 

O platinado sentiu o seu rosto voltar a ganhar vida à medida que um pequeno sorriso se formava nos lábios. Não sabia o exato motivo, mas precisava de um incentivo que lhe desse força para seguir em frente.

 

- Achas mesmo? – riu, voltando a dirigir a atenção para Cutiefly. – Struggle Bug!

 

Cutiefly voltou a concentrar a sua atenção e energia. Desta vez, sentiu a paralisia perder força à medida que o seu corpo se iluminava com uma aura encarnada. À frente do seu pequeno rosto, uma grande esfera vermelha começava a ganhar forma e a reluzir. Quando Bede esticou o braço à frente do peito e abriu a palma da sua mão, a criatura voadora lançou o ataque contra o corpo de Morelull, que caiu redonda no chão.

 

Bede levou a mão até ao bolso do seu longo casaco, retirando uma Great Ball. A esfera azul foi arremessada contra o corpo de Morelull, que se transformou em luz encarnada antes de se depositar no interior da cápsula. O platinado correu na direção do objeto caído no chão. Os seus olhos fitavam as suas vibrações até que a captura, finalmente, se concluíra.

 

- Obrigado, Cutiefly. Foi um grande treino. – falou, retrocedendo o corpo do voador para o interior da sua Poké Ball.

 

- Por momentos pensei que fosses ceder. – murmurou Victor.

 

- Nem em sonhos. – cuspiu o platinado.

 

- Parece que a tua equipa também está a crescer. – apontou Marnie, sorridente.

 

- E nós estamos cada vez mais perto de Hammerlocke! – exclamou Gloria, levantando os braços. – Vamos!

 

As duas raparigas saíram disparadas, ocupando a frente do grupo novamente. Victor e Bede voltaram a ficar para trás. Caminhavam a um passo mais lento e permaneciam em silêncio, observando o céu laranja transformar-se em violeta. A noite estava a chegar.

 

- Obrigado pelas palavras de há pouco. – foi o platinado quem quebrou o silêncio, falando sem encarar o rosto do outro rapaz.

 

- Não foi nada. – o gémeo encolheu os ombros. – Também me ajudaste com o Toxel. – fez uma pausa. – E-e-e.. com as minhas coisas.

 

Bede deixou escapar um pequeno riso.

 

- Podemos ajudar-nos um ao outro. – afirmou, voltando-se para o encarar.

 

- Olha, olha… - Victor virou-se na sua direção, devolvendo o olhar. – Lembras-te de quando nos conhecemos no Budew Drop Inn e disseste que não querias ser nosso amigo?

 

- E não quero. – contrapôs de imediato. – Não é por nos ajudarmos mutuamente que que deixamos de ser rivais. Não gostas de uma boa competição?

 

- Claro que sim. Desde que seja saudável. – respondeu. – Mas há uns tempos, não nos imaginaria a treinar juntos na Wild Area. – confessou, deixando escapar um riso abafado.

 

- Talvez eu também tenha aprendido alguma coisa com a Marnie. Que posso fazer… - fez uma pausa, como se estivesse à procura de uma palavra entre os pensamentos no interior da sua cabeça. – conhecidos, ao longo do caminho.

 

- Então somos conhecidos, é isso?

 

O tom de Victor saiu mais rígido do que o próprio esperava, o que fez com que Bede baixasse a cabeça para voltar a encarar o chão. O gémeo começava a achar que o rapaz fazia aquilo demasiadas vezes e, por algum motivo, não gostava de o ver com uma postura derrotista.

 

- Victor, a verdade é que nunca fui bom a relacionar-me com pessoas. – murmurou.

 

- Porquê?

 

A questão de Victor ecoou na cabeça de Bede por longos segundos. Aquele era o momento de escolher se continuaria a defender-se e a esconder-se atrás das suas muralhas ou se devia, finalmente, deixar alguém entrar e conhecer a sua verdadeira história. O silêncio tornou a invadir a atmosfera à volta dos dois rapazes enquanto a lua se esculpia no céu cada vez mais escuro.

 

- Eu nunca contei isto a ninguém. – começou. – Mas eu cresci no Motostoke Orphanage. Nunca conheci a minha família. Não sei quem são.

 

- Bede… - o gémeo tentava manter uma expressão neutra, mas a sua voz saiu fraca, revelando a surpresa que sentia. – Lamento muito. Desculpa se…

 

- Não. – cortou friamente. – Está tudo bem. Eu sei quem sou. – afirmou, numa voz confiante. – Mas acho que é por isso que não gosto de me aproximar de outras pessoas.

 

- Mas…

 

- Se a minha própria família me abandonou, como posso confiar em meros estranhos?

 

O silêncio voltou a instalar-se entre os dois. Victor fitava as pupilas roxas de Bede, que permanecia com uma expressão rígida no seu rosto. Os seus caracóis abanavam com a brisa e atrás de si as folhas das árvores agitavam-se calmamente.

 

O gémeo tentou falar, mas todas as palavras que passavam pela sua mente pareciam demasiado impotentes face às outras ditas pelo rapaz à sua frente. No entanto, uma questão vagueava na sua cabeça. Não percebia o motivo que levara Bede a confiar em si para revelar tal informação. Era claro que ambos tinham fortalecido os seus laços nos últimos dias, mas a vulnerabilidade era um sentimento que não estava habituado a ver refletido na figura do outro.

 

Victor deixou escapar um suspiro sincero, colocando as mãos dentro do bolso das calças. Sentia-se desconfortável e sem saber o que dizer ou fazer. Mas uma voz atrás de si resolveu o seu problema.

 

- Estão aí especados a fazer o quê!? – exclamava Marnie, metros à frente.

 

- Despachem-se! – gritava Gloria, com as mãos à volta da boca. – Os portões de Hammerlocke são já aqui!


                  

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  1. difícil acreditar que finalmente estou em dia com a fanfic! e que jornada! kkk

    Pensava que eu não ia com o Bede sendo simpático com o Vitor, mas até que ambos estão a mostrar uma dinâmica muito boa. Gostei de saber que o Bede confiou a sua informação pessoal ao rival dele, é um personagem bem carismático! Estou a adorar a maneira como a falta do Hop no grupo está a afetar as personagens, seus desejos e a própria história da fanfic!

    Mais um otimo capitulo! Estou no aguardo dos próximos!

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    1. Agora sim! Atualizada com Aventuras em Galar!

      Trabalhar o Bede é muito interessante. Eu sei exatamente onde quero chegar, mas o caminho não está muito bem definido. Então o que acontece é que a personagem acaba por ter vida própria. Eu gosto de dar esse espaço e liberdade para ouvir cada uma delas e posso dizer que Bede é quem mais se faz ouvir de todo o elenco! Fico feliz por saber que gostas da dinâmica entre Victor e Bede, pois ambos têm muita coisa pela frente!

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