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Série: Wednesday


            Wednesday, estreada em 2022 na Netflix, é inspirada no filme de 1991 The Addams Family, criado por Charles Addams. A série de oito episódios foi criada por Alfred Gough e Miles Millar e conta com a participação de Tim Burton na realização. O novo projeto caracteriza-se pelas fortes componentes de mistério e terror, envoltos num coming-of-age com muita comédia satírica à mistura.


            A história coloca Wednesday Addams (Jenna Ortega) no centro da narrativa. Depois de o irmão, Pugsley (Isaac Ordonez), ser alvo de bullying por membros da equipa de natação da escola, Wednesday decide retribuir na mesma moeda, colocando piranhas na piscina, que atacam os alunos. Depois de ser expulsa da instituição, Morticia (Catherine Zeta-Jones) e Gomez (Luis Guzmán), os pais da jovem apática, decidem inscrevê-la na Academia Nevermore, onde os mesmos estudaram.


            Nevermore é a escola para todos aqueles que são colocados de parte pela sociedade. O leque de alunos é composto por grupos específicos, como vampiros, lobisomens e outros monstros com poderes fantásticos. A instituição é gerida pela diretora Larissa Weems (Gwendoline Christie), responsável por conduzir a educação dos alunos com a ajuda da professora Marilyn Thornhill (Christina Ricci - intérprete de Wednesday Addams no filme original de 1991, The Addams Family).



            Enid Sinclair (Emma Myers) é a colega de quarto de Wednesday e ambas não podiam ser mais diferentes. Enquanto Wednesday é apaixonada pela morte, Enid luta contra a própria natureza: tornar-se numa lobisomem. Xavier Thorpe (Percy Hynes White) é um jovem artista que vê as suas criações ganhar vida. Eugene Otinger torna-se amigo da jovem protagonista, ajudando-a durante as suas misteriosas investigações, e Bianca Barclay (Joy Sunday) é a melhor aluna da escola, que vê Wednesday como uma verdadeira rival.


            Jericho é a localidade na qual Nevermore se encontra. Os habitantes da cidade não concordam com a presença dos alunos marginalizados na sua pequena sociedade, mas os jovens não se deixam intimidar pelas ameaças constantes. É em Jericho que Wednesday visita a terapeuta Valerie Kinbott (Riki Lindhome), que a auxilia a lidar com as emoções mais profundas e complexas. Na mesma cidade, a protagonista conhece o jovem Tyler Galpin (Hunter Doohan), com quem começa a desenvolver uma relação mais íntima, apesar de o pai do rapaz, o xerife Donovan Galpin (Jamie McShane), não aprovar a ligação entre os dois adolescentes.


            As visões de Wednesday são fundamentais para interligar os diferentes arcos narrativos da primeira temporada da série. Da descoberta dos seus poderes sobrenaturais aos segredos da família Addams e mortes misteriosas que assombram os populares de Jericho e os alunos de Nevermore, todas as narrativas se sobrepõem, interligando-se na figura central de Wednesday, papel incrivelmente desempenhado por Jenna Ortega.



            A dinâmica familiar que existe entre Wednesday, Morticia, Gomez Pugsley é simplesmente incrível. A peculiaridade desta família permanece única e marcante. Daqui, destacam-se os momentos hilariantes e apaixonantes entre as duas figuras paternais, seja em que circunstância for. A relação entre os dois irmãos também fica marcada pela diferença - enquanto Wednesday não gosta de demonstrar qualquer tipo de emoção ou afeto, o mais novo assume-se como o elemento mais frágil da família, tentando abraçar a irmã sempre que tem oportunidade.


            No entanto, o que distingue verdadeiramente o núcleo familiar de todos os outros é a relação entre mãe e filha. A protagonista começa por se declarar como o oposto total de Morticia, declarando afirmações frias e cruéis no início da história. Porém, o poder de visualizar o futuro é uma marca sobrenatural hereditária e, por isso, torna-se no elemento que inevitavelmente une mãe e filha. O desenvolvimento da relação entre ambas torna-se numa peça chave de toda a temporada.


            As relações que Wednesday desenvolve ao longo dos episódios revelam-se interessantes e curiosas, tendo em conta a personalidade mórbida e apática da personagem. Os momentos entre Wednesday Enid tornam-se inesquecíveis, tendo em conta as distintas personalidades das duas raparigas, criando momentos hilariantes e com frases inesquecíveis.



            Bianca surge como a rival inicial da protagonista, funcionando como uma forma de demonstrar a força e o poder de Wednesday contra todos aqueles que se colocam no seu caminho. Por sua vez, Tyler demonstra um lado mais emocional da jovem enigmática e que, habitualmente, segue a sua linha racional. Os momentos a sós entre as os dois revelavam o constrangimento provocado pelo coração frio de Wednesday, que se torna mais quente com a ajuda do rapaz "normal".


            Nevermore parece ser o local perfeito para o mistério. Competições mortais, passagens enigmáticas e sociedades secretas: todas elas estão presentes na nova realidade de Wednesday. As pistas para solucionar os principais segredos da história são reveladas aos poucos. Em cada episódio são desvendadas novas informações, dando a possibilidade para o público construir as suas próprias teorias. Com um elenco relativamente pequeno e episódios de longa duração, as revelações finais podem tornar-se previsíveis, mas os últimos twists mantêm-se surpreendentes.


            Para além do argumento sólido, Wednesday destaca-se fortemente por todo o ambiente que dá vida à narrativa. Da escola, à cidade e à floresta, todos os locais contribuem para a construção deste universo mágico. A construção dos sets acompanha o nível exímio do guarda roupa, que funciona como uma caracterização das diversas personagens. A iluminação também desempenha um papel fundamental no desenvolvimento da história, encontrando-se presente em todos momentos chave da trama. Da mesma forma, a banda sonora combina pop hits com música clássica que acompanha o crescimento da tensão narrativa. Porém, os mesmos elogios não podem ser tecidos aos efeitos especiais, que por vezes se afastavam do tom realista do novo projeto da Netflix.



            "As emoções são uma vulnerabilidade. Levam a sentimentos que provocam lágrimas. Lágrimas não é comigo". É assim que Wednesday se caracteriza a si mesma. A verdade é que, apesar de ser uma weirdo, a jovem revela interesses mórbidos e inusitados, tornando-a numa personagem singular e inesquecível. As suas características podem aproximá-la do público mais jovem, ou, por outro lado, afastá-la da nova geração.


                                                       Nota: ⭐⭐⭐⭐


Filme: Moonlight

 


            “Moonlight” é um filme escrito e dirigido por Barry Jenkins. A adaptação da obra “In Moonlight Black Boys Look Blue”, de Tarell Alvin McCraney, estreou em 2016, vencendo uma série de distinções por todo o mundo, nomeadamente o Óscar de Melhor Filme e o Óscar de Melhor Roteiro Adaptado, em 2017. A longa-metragem conta a história de autodescoberta de Chiron, um rapaz negro que vive em Miami, em 1980 – uma época que ficou marcada nos Estados Unidos da América pelo uso de drogas e vários tipos de violência associados a substâncias ilícitas. O filme está dividido em três partes distintas, que ilustram a jornada de vida de Chiron, explorando temáticas sociais, raciais e ligadas à sexualidade.

Poster de "Moonlight", filme de Barry Jenkins.

            “Little”, o primeiro arco da história, tem início com um enquadramento bastante simbólico. O carro azul de Juan (Mahershala Ali) é o primeiro objeto apresentado ao espectador. O automóvel, que simboliza o caminho e a viagem que está prestes a ser contada, é colorido de azul, uma cor presente ao longo de todo o filme e que, nesta história, remete para a realidade, verdade e genuinidade de cada pessoa. A câmera que acompanha Juan ao longo desta sequência movimenta-se de forma calma e suave, revelando, aos poucos, o ambiente à sua volta – um bairro nos subúrbios de Miami, onde acontece o tráfico de drogas. A forma como a própria câmera se desloca reflete a personalidade de Juan, um homem forte, destemido e confiante, que lidera toda a cena ao interagir com os jovens traficantes que trabalham para si.


            O tom altera-se quando a câmera acompanha uma criança que corre enquanto foge de um grupo de rapazes. A agitação e o desfoque da imagem refletem o medo e a insegurança que o menino sente até se refugiar no interior de uma casa abandonada. É neste momento que, lá fora, os bullies se fazem ouvir, “enchendo” a cabeça do rapaz de sons agudos e desconhecidos, transmitindo uma sensação de perigo para o público. É neste momento que Juan entra em cena. De início, a criança afasta-se do desconhecido, relutante e desconfiada, no entanto, o homem convence o menino a acompanhá-lo até um café, onde come uma refeição. A criança mantém uma postura defensiva durante toda a cena, aparecendo de cabeça baixa e em silêncio enquanto Juan tenta apurar informações sobre a sua identidade. Ao longo da cena, o enquadramento vai-se fechando cada vez mais, à medida que se aproxima das duas personagens, sendo que o plano individual de cada uma delas se vai alterando em cortes sucessivos, representando a falta de interação e intimidade entre os dois.

            É em casa de Juan que a personagem Teresa (Janelle Monáe) é apresentada, como uma jovem mulher simpática, responsável e amável. É na sua presença que a criança revela a sua identidade. O seu nome é Chiron (Alex Hibbert), no entanto, os rapazes da sua escola tratam-no como Little – nome que intitula a primeira parte do filme –, de forma depreciativa. É nesta cena que, pela primeira vez, o espectador ouve a voz de Chiron e conhece o seu nome – o facto de o público receber estas informações ao mesmo tempo que as outras personagens em cena, faz a audiência sentir-se dentro do próprio filme, criando uma sensação de imersão na história. É também neste momento que a câmera se começa a movimentar de forma mais fluída e contínua entre as várias personagens sentadas à volta da mesa, transmitindo a ideia de aproximação.

            Quando Juan leva Chiron até casa, o público conhece Paula (Naomie Harris), mãe do menino. Pelo seu discurso e postura, aquela não é a primeira vez que o rapaz desaparece ou passa a noite fora, revelando uma relação disfuncional entre os dois familiares. A mulher rejeita a ajuda de Juan e pede-lhe para se afastar do seu filho, revelando a grande necessidade de controlo sobre o pequeno Chiron, sem, no entanto, ter capacidades para tal. Este é o grande dilema de Paula ao longo do filme: a personagem navega entre ser uma boa mãe para o seu filho, enquanto lida com a dependência de drogas.

            Kevin (Jaden Piner) é o único amigo de Chiron. Numa cena onde o grupo de rapazes é apresentado, Chiron é avistado à parte, num plano isolado. No entanto, mais tarde, Kevin aproxima-se do menino, aconselhando-o a não se deixar intimidar pelos outros. Esta é a primeira interação de uma relação íntima entre as duas personagens.

            Segue-se uma das cenas mais simbólicas de todo o filme. Na praia, Juan ensina Chiron a nadar no mar. “Hey, I got you lil' man, I got you”, garante o homem mais velho enquanto enumera os passos à criança. No entanto, neste momento, Juan não está a ensinar Chiron apenas a nadar. Juan também o conforta, garantindo-lhe que estará ao seu lado para o resto da vida, auxiliando-o em tudo aquilo que for necessário. Nesta cena, a câmera está colocada à altura da água, fazendo com que o público se sinta presente no local, ao mesmo tempo que a banda sonora de Nicholas Britell se intensifica, exponenciando o valor simbólico de toda a sequência. O momento demonstra também a complexidade da personagem de Juan: para além de ser o líder destemido de uma rede de tráfico de droga, consegue também ser uma figura paternal com uma certa vulnerabilidade. A cena continua fora de água, onde Juan conta, com o som de fundo da maré e da brisa do mar: “This one time... I ran by this old, old lady (…) In moonlight’ she say, ‘black boys look blue. You blue,’ she say.” É este o diálogo que dá título ao filme e serve de mote para toda a história. Na realidade, a luz do luar e a cor azul significam ser verdadeiro, sincero e genuíno. Este é o grande desejo e debate interno de Chiron, assim como das outras personagens durante toda a longa-metragem.


            A segunda parte de “Moonlight”, “Chiron”, apresenta a personagem principal na fase da adolescência. É em casa de Teresa que se percebe que, durante o time jump entre os dois arcos, Juan morreu, pelo que o principal apoio emocional do jovem Chiron (Ashton Sanders) já não se encontra presente, o que faz com que o adolescente se sinta cada vez mais desorientado e perdido. É durante uma troca de palavras com Teresa que o jovem explica que não quer ser mais tratado pelo nome de Little, pelo que a mulher responde: “(…) you right, that ain’t no name for you no more. That ain’t you. But if you wanna be somethin’ different, you gotta earn it, you gotta make your name true, understand?” Com isto, Teresa quer dizer que, de forma a fazer jus ao seu nome, Chiron deve demonstrar a pessoa que realmente é, sem ter medo do que aqueles à sua volta possam achar. Para além de intitular o segundo arco da história, esta ideia surge na sequência de que Juan era o principal confidente do jovem. Neste momento, parece que Teresa continua o legado deixado pelo seu companheiro.

            Paula volta a ser encontrada quando Chiron regressa a casa. Nesta cena, aquilo que a câmera mostra não está sincronizado com o áudio que é ouvido. Ou seja, o plano mostra o rosto da mãe do jovem a sorrir, no entanto, a sua voz sobrepõem-se ao que é visto, demonstrando o estado mental da personagem – claramente embriagada e drogada. A sequencia prossegue para Paula a extorquir dinheiro ao próprio filho, num ato de desespero e violência emocional e física. O posicionamento da câmera entre os dois atores dá a sensação de que o espectador está fisicamente presente no local com as duas personagens, tornando a discussão encenada bastante realista.

            Desamparado, Chiron refugia-se onde se sente realmente confortável: na praia. É à noite, debaixo do luar e junto ao mar, enquanto ouve a maré e a brisa do oceano, que o jovem reencontra o seu amigo Kevin (Jharrel Jerome). Os dois conversam sobre a brisa: “Sometimes round the way, where we live, you can catch this same breeze. It come through the hood and it’s like everything stop for a second ‘cause everybody just wanna feel it. Everything just get quiet, you know?”, afirma Kevin, seguido por Chiron: “And its like all you can hear is your own heartbeat, right?”. Os dois rapazes partilham as suas inseguranças porque, no fundo, sentem-se confortáveis um com o outro. Chiron chega mesmo a dizer: “I cry so much sometimes I think one day I’m gone just turn into drops.”, revelando a sua vulnerabilidade para Kevin. É neste seguimento que os dois partilham um momento mais íntimo e a personagem principal tem a sua primeira experiência sexual. É de notar que toda a transparência e genuinidade demonstrada ao longo desta sequência ocorre sobre a luz do luar, a luz azul, que remete para o mote inicial de todo o filme – ser genuíno e estar em sintonia com a nossa realidade.


            A narrativa continua a desenrolar-se, desta vez com a ajuda dos bullies de Chiron, que obrigam Kevin a espancar o seu melhor amigo. As agressões ocorrem à luz do dia, no pátio da escola, onde todos os alunos estão presentes. Quando Chiron é espancado pelo grupo de rapazes, a câmera fica desfocada e o som desaparece por completo. De certa maneira, é neste momento que a personagem de Chiron “morre”, sendo substituída por uma nova versão do rapaz. Versão essa que, consumida pelas suas emoções, é responsável por agredir Terrel (Patrick Decile) com uma cadeira no interior da sala de aula.

            O último arco da história tem o nome de “Black”. É assim que, enquanto adulto, Chiron (Trevante Rhodes) é conhecido nas ruas. Fisicamente mais forte e bastante semelhante a Juan, Chiron lidera uma rede de tráfico de droga, exercita o seu corpo para reprimir as suas emoções, vive sozinho e mantem uma relação afastada com a sua mãe abusiva. Ao longo dos diálogos, é revelado que, durante o time jump entre a segunda e a terceira parte do filme, Chiron foi preso por agredir o seu próprio agressor. Depois de cumprir a sua pena, o caminho trilhou-se de forma automática para as ruas da cidade. Parece que, no fundo, a pequena criança tornou-se naquilo que mais temia, reprimindo, ao mesmo tempo, a sua verdadeira essência, a mesma que a sociedade teima em não aceitar. No entanto, tudo parece mudar numa noite em que Chiron recebe a chamada de um velho conhecido. Do outro lado da linha, a voz de Kevin faz-se ouvir ao mesmo tempo que a expressão facial e a postura corporal de Chiron se transformam, passando de um tom mais ereto e rijo para uma forma mais emocional e vulnerável, à medida que o plano se vai fechando no rosto do ator, transmitindo todas as sensações para a audiência.

            A última vez que Paula surge na película revela uma faceta completamente diferente daquela explorada até então. Agora a viver num centro de reabilitação, a mãe de Chiron mostra-se arrependida e magoada com o passado e com todo o sofrimento que causou ao próprio filho: “I messed up baby. I fucked it all up, I know that. But yo’ heart ain’t gotta be black like mine, you hear me? I love you baby. I do, I love you Chiron. You ain’t gotta love me, lord knows I didn’t have love for you when you needed it, I know that. So you ain’t gotta love me but you gon’ know that I love you, you hear?” Esta é uma das cenas mais marcantes da longa-metragem, graças à performance apresentada pelos dois atores, responsáveis por transmitirem todas as emoções necessárias para o público que, sem se aperceber, sente que está, de facto, presente no mesmo local que as personagens. Os ângulos por cima dos ombros e os planos fechados, próximos dos rostos das personagens, também ajudam a criar o efeito de proximidade e contacto com a audiência.Esta é também a tentativa de Paula se redimir ao próprio filho, maltratado e abandonando durante grande parte do seu crescimento. No entanto, a mulher acredita que Chiron possa ser melhor que ela, melhor do que aquilo em que ele se transformou enquanto “Black”.


            A história segue e Chiron faz-se à estrada, viajando em direção a Kevin (André Holland), que o recebe no seu próprio restaurante. Quando os dois homens cruzam olhares pela primeira vez depois de longos anos sem se verem, a imagem volta a ficar desconcertada com o áudio emitido, revelando o choque e a hipnose sentidas por ambos. Os dois percebem que estão diferentes e demonstram surpresa relativamente aos rumos tão distintos que as suas vidas levaram. Se, por um lado, Chiron foi preso e se tornou num chefe de tráfico de droga, Kevin teve um filho e abriu o seu próprio restaurante. No entanto, apesar de todas as alterações nas suas vidas, a intimidade e a segurança que antigamente sentiam um com o outro parece continuar presente tanto tempo depois. À pergunta de Kevin “You remember the last time I saw you?”, Chiron responde “For a long time, tried not to remember. Tried to forget all those times. The good... the bad. All of it.”, confessando que, por mais que tentasse fugir do passado, ele arranjava sempre uma forma de voltar para si, tal como naquele momento, onde voltava a reencontrar o seu velho amigo. É então que, finalmente, o protagonista do drama deixa o seu escudo de proteção cair, revelando num nível máximo de vulnerabilidade “You’re the only man who’s ever touched me.”, enquanto, no fundo, ondas do mar se voltam a fazer ouvir, acompanhadas pela brisa do oceano – a representação da luz do luar e da cor azul, ambos símbolos de honestidade e genuinidade. Os dois homens adultos acabam por cair nos braços um do outro, apoiando-se e auxiliando-se entre si, deixando os seus verdadeiros sentimentos saírem, finalmente, em liberdade. Parece que, por fim, “Little”, “Chiron” e “Black” se encontraram a si mesmos. Esta última cena da película é bastante curiosa. Apesar de se ouvir a maré do oceano, que simboliza a verdadeira identidade de cada pessoa, e de, finalmente, Chiron se entregar a Kevin, a iluminação do local é bastante escassa, quase escura. Parece que, apesar da personagem principal ter revelado a sua vulnerabilidade e os seus sentimentos genuínos, se continua a esconder do resto do mundo, tal como aconteceu durante toda a sua vida.


            O último plano da longa-metragem revela Chiron em criança, voltado para o mar e de costas para a câmera. A tela é pintada de azul, à medida que a brisa da maré se continua a ouvir e o pequeno rapaz se vira, observando o próprio público, como se estivesse a questionar “E tu? Qual é o teu verdadeiro eu?”.


            “Moonlight” é uma obra de arte altamente simbólica, subjetiva e introspetiva. A densa narrativa completa-se com os diálogos ricos e profundos entre personagens que apresentam várias camadas e, apesar de serem fictícias, graças ao alto desempenho de todo o elenco, se tornam reais e genuínas, engolindo o público para o interior da narrativa. Esta não é uma história sobre a dependência de drogas, a homossexualidade, a pobreza, o bullying ou os maus-tratos familiares. É uma história sobre o próprio crescimento individual e como as várias fases da vida se sucedem e influenciam umas às outras, quer por motivos externos ou por razões internas.

                                                       Nota: ⭐⭐⭐⭐


Álbum: don't smile at me



            Nascida a 18 de dezembro de 2001, Billie Eilish cresceu numa família de artistas, fazendo com que, a 9 de agosto de 2017, com apenas 16 anos, a jovem lançasse o seu EP de estreia, “don’t smile at me”, através da Interscope Records. Este projeto foi totalmente produzido com a ajuda do seu irmão, Finneas O’Connell.
 
Capa do álbum "don't smile at me" de Billie Eilish.

1. COPYCAT

            “don’t smile at me” tem um início sombrio e um tanto assustador. “COPYCAT” fala das pessoas “falsas”, que não conseguem ser elas mesmas por tentarem ser quem não são, de maneira a apresentarem uma personalidade mais aceitável para os outros à sua volta.

            A nível lírico, a primeira faixa do EP apresenta versos bastante honestos, como “All you say are all the same things I did”, criando a imagem de um clone da artista, que, no fundo, se apodera da sua personalidade e finge ser alguém que não é realmente. Mais tarde, “You’re italic, I’m in bold” é uma metáfora que compara o clone de Billie com a Billie original. Enquanto o texto em itálico é inclinado e ocupa menos espaço, o texto a negrito chama mais atenção por ser, de uma certa maneira, maior e, sucessivamente, ocupar mais espaço. Desta maneira, Billie afirma que o seu clone ou as pessoas que a tentam imitar nunca serão tão fortes como ela.

            O objetivo desta música é fazer com que as pessoas deixem de ser quem não são, que deixem de ser um “clone” de alguém e passem a ser elas mesmas.



Nota: ⭐⭐⭐⭐

2. idontwannabeyouanymore

            A segunda música do EP representa as inseguranças, a falta de confiança e a baixa autoestima de Billie Eilish. No fundo, é o completo oposto da música anterior.

            Billie é, desde sempre, bastante ativa na questão da saúde mental. A artista afirmou ser vítima de alguns episódios de depressão e ataques de ansiedade ao longo da sua vida que, no fundo, a fazem questionar de si mesma e da sua própria pessoa.

            Nos primeiros versos da faixa, percebemos que Billie está a ter uma conversa com alguém, no entanto, este alguém é ela mesma. “I just wish you could feel what you say” representa a personagem que Billie interpreta para os outros, sendo que, ela mesma não sente aquilo que realmente afirma. “Only you know the way that I break” demonstra que apenas a própria pessoa sabe como ela mesmo se sente. Ainda que outra pessoa explique a alguém os seus sentimentos, a outra não os pode sentir e, para além disso, podem nem sequer ser verdadeiros.

            No refrão, “If teardrops could be bottled, there’d be swimming pools filled by models”, Billie e Finneas abordam uma questão bastante importante. Apesar de os modelos serem um ícone e uma inspiração para muitas pessoas, muitos deles são infelizes. Alguns são ditos que devem perder mais peso e muitos outros sofrem de problemas mentais. No fundo, mesmo estando no “topo”, nunca ninguém é realmente perfeito.

            Por último, “Tell the mirror what you know she’s heard before, I don’t wanna be you anymore” é a ideia principal desta faixa e também do seu videoclip, onde Billie se olha no espelho enquanto canta os versos desta balada. No fundo, Billie está cansada dela mesma e dos seus sentimentos. Numa entrevista, a artista afirmou “Eu nunca disse nada mais verdadeiro do que isto. Tu és sempre tu, para sempre. Isso é assustador.”



Nota: ⭐⭐⭐⭐⭐

3. my boy

            “my boy” é a terceira faixa do EP e é também a mais curta de todas. A música aborda um relacionamento falhado, com um rapaz, que mentia constantemente à artista.

            Logo no início “My boy's being sus, he was shady enough, but now he's just a shadow” Billie explica, através de um jogo de palavras, que o rapaz era tão suspeito (“shady”) que, eventualmente se tornou numa mera sombra (“shadow”), ou seja, desapareceu. O verso “My boy's an ugly crier but he's such a pretty liar and by that I mean he said he'd «change»” mostra que o rapaz está, claramente, habituado a mentir, afinal, ele é tão bom a fazê-lo que mantem a sua beleza enquanto o faz, manipulando facilmente quem quiser. Ele diz que vai mudar, mas isso é só mais uma mentira que usa para manipular as pessoas.

            No refrão, “Don't love me like he promised”, Billie faz uma ligação com a faixa anterior, “idontwannabeyouanymore”, mais precisamente, com os versos “If «I love you» was a promise, would you break it, if you’re honest?”.

            Por último, nos versos “You want me to be yours well then you gotta be mine, and if you want a good girl, then goodbye” Billie mostra que é ela quem tem controlo sobre a situação e que, tal como o rapaz, ela não quer ser uma “boa menina”, terminando assim a relação tóxica.



Nota: ⭐⭐⭐⭐

4. watch

            A quarta música mostra a perspetiva de Billie sobre um amor não correspondido, ao mesmo tempo que a jovem tenta perceber por que razão não está com a pessoa de quem ela gosta. Toda a música é acompanhada pelo som de um fósforo a acender, que representa o tema principal da música – o fogo.

            No primeiro verso, If we were meant to be, we would have been by now, see what you wanna see, but all I see is him right now”, Billie explica que, apesar de gostar da outra pessoa, se eles tivessem que ficar juntos, já o teriam feito. No entanto, enquanto que pessoas fora da relação a vêm como tóxica, Billie ainda pensa no rapaz como seu parceiro e continua a admirá-lo. Ele é a única coisa que ela vê.

            O refrão é, sem dúvida, o que melhor resume esta faixa. Nos versos “I'll sit and watch your car burn, with the fire that you started in me, but you never came back to ask it out”, Billie refere o fogo, de forma literal, mas também como a dor que ela sofreu graças a esta relação. A artista culpa o rapaz por tudo o que ela passou e responsabiliza-o pela vingança que ela cometeu. No fundo, o seu parceiro deu início a um fogo que não foi capaz de apagar e agora ela quer que ele sinta a dor que ela sentiu.

            Por último, após questionar o seu antigo parceiro, Billie conclui “Now you know, now I’m free”, terminando então a sua vingança, ao mesmo tempo que ela se liberta da relação que tanto a fez sofrer.

            No videoclip, Billie aparece como duas versões diferentes. A primeira Billie está presa, ensopada em gasolina, e rodeada por quatro carros que representam os seus sentimentos. A outra versão, renovada, encontra-se num quarto que parece derreter ao longo de todo a música. No final do videoclip, a “nova Billie” consegue fugir do quarto, encontrando a “antiga Billie”, triste e ensopada em gasolina, e acende-a em chamas, representando, finalmente, a superação face a este relacionamento tóxico que a deixou de coração partido.



Nota: ⭐⭐⭐⭐

5. party favor

            “party favor” é a quinta faixa do primeiro trabalho de Eilish e tem início com uma mensagem de voicemail que a artista deixa ao seu namorado possessivo, na tentativa de o tirar finalmente da sua vida.

            No começo da música, ouvimos os toques da chamada, no entanto, Billie é levada até ao voicemail da pessoa em questão, o seu namorado que, aparentemente faz anos e está demasiado ocupado para a atender. “(…) by the time you get this your number might be blocked” é assim que Billie termina a sua mensagem no voicemail, depois de tentar contactar o rapaz e não conseguir. A artista não parece satisfeita com o rumo da relação e parece querer pôr-lhe um fim, daí a razão para bloquear o número do sujeito em causa. Eilish parece debater-se com a complicada situação de terminar, ou não, uma relação. Ao bloquear o número do rapaz, Billie parece “fugir” às responsabilidades, ao mesmo tempo que tenta lutar contra a tentação de dar outra oportunidade à relação saturada.

            Finalmente, nos versos “You know that's bullshit, dontcha, babe?”, farta de desculpas que apenas causam mais problemas, Billie decide terminar a relação, mesmo sendo o aniversário do rapaz.



Nota: ⭐⭐⭐

6. bellyache

            A sexta música de “don’t smile at me” apresenta a perspetiva fictícia de um sociopata, que, ao dar-se conta das suas ações, arrepende-se e acaba por se suicidar. Billie confirmou numa entrevista que “bellyache” é inspirada na música “Garbage” de Taylor, The Creator’s.

            A música, iniciada com um ritmo relaxante e aparentemente inocente, rapidamente muda de ritmo. Após os versos “My friends aren't far, in the back of my car, lay their bodies”, percebemos que Billie interpreta um sociopata que acabou de matar os seus amigos.

            Ao longo de toda a música, Eilish repete o verso “Where’s my mind?”, dando-se conta do acidente ocorrido, ao mesmo tempo que volta a ter controlo do seu corpo e questiona a sua sanidade mental.

            O refrão termina com os versos “Thought that I'd feel better, but now I got a bellyache”, mostrando que, matar todos aqueles que lhe fizeram mal durante a sua vida, não lhe trouxe felicidade ou alívio, como ela pensava. Na verdade, Eilish sente-se um pouco doente, ao mesmo tempo que antecipa as consequências das duas ações. Desta maneira, Billie pretende mostrar que a vingança não resolve absolutamente nada, apenas traz mais problemas.

            Na conclusão da música, Billie admite “I wanna make 'em scared, like I could be anywhere, like I'm reckless”, ou seja, o assassino comete suicídio, não para escapar do seu destino – a prisão – mas para provocar medo a todos aqueles que continuam vivos. Eilish prefere tornar-se uma lenda do que mais uma criminosa presa numa prisão. Agora, ela é um mito, um medo que assombra e persegue as pessoas.

            O videoclip é uma espécie de continuação da própria música em si. Após cometer suicídio, Eilish encontra-se cara-a-cara com um polícia, revelando que, faça o que fizer, a assassina não consegue escapar às suas consequências. O polícia é uma espécie de guarda, que protege a passagem para a vida após a morte. No entanto, a entrada da personagem de Billie é negada, condenando-a ao espaço entre a vida e a morte para o resto da sua existência.



Nota:⭐⭐⭐⭐⭐

7. ocean eyes

            “ocean eyes” foi a primeira música lançada por Billie Eilish, em 2014, no seu SoundCloud pessoal. Nesta faixa, a artista coloca-se na posição de alguém que ela magoou, de forma a tentar perceber tudo aquilo por que essa pessoa passou. A calmaria transmitida por esta música, acompanhada pelo instrumental e as harmonias de fundo, tornam-na na melhor balada de “don’t smile at me”.

            No refrão, Billie canta “No fair, you really know how to make me cry when you give me those ocean eyes”, mostrando o controlo que a outra pessoa tem sobre a artista, apenas através dos seus olhos. O mar e os oceanos tanto podem ser vistos como relaxantes, como perigosos. Desta maneira, os olhos da pessoa em questão têm um certo efeito sobre Eilish, que pode ser bom ou mau. “I've never fallen from quite this high” é uma metáfora entre a queda de alguém para a água e “queda” de quando alguém se apaixona por outra pessoa.

            Perto do fim, no verso “You left her lonely with a diamond mind”, Billie enfrenta as consequências de ficar sozinha, após o outro sujeito partir, e os sentimentos que ele deixou com ela. “Mente de diamante” pode ser uma metáfora para a mente de artista que Eilish carrega ou, como o próprio diamante, Billie é inquebrável e difícil de perceber, deixando-a, inevitavelmente, sozinha.

            A sétima faixa do EP teve direito a dois videoclips. O original, foi gravado apenas num take, onde podemos observar Billie a cantar diretamente para a câmera, contra uma cortina. O segundo é um vídeo de dança, revelando uma das maiores paixões da artista multifacetada.



Nota: ⭐⭐⭐⭐⭐

8. hostage

            A oitava música do EP mostra a obsessão que Billie sente pelo seu companheiro, argumentando que o ama tanto que o quer manter como refém só para ela.

            Logo no começo, Billie afirma “I wanna steal your soul and hide you in my treasure chest”, mostrando o quão preciosa é, para ela, a pessoa em questão, ao ponto de a querer guardar no seu próprio “tesouro”.

            No refrão, Eilish continua com a sua obsessão “And let me crawl inside your veins”, revelando que, se ela não pode ficar com o sujeito em questão para sempre, então ela está disposta a viver dentro dele e, assim, os dois podem tornar-se na mesma pessoa. Mais tarde, a artista canta “You're all I wanted, just let me hold you, hold you like a hostage”, utilizando uma metáfora dramática para descrever o desespero que ela sente para estar com o seu amado.



Nota: ⭐⭐⭐⭐

9. &burn

            A última faixa de “don’t smile at me” é uma sequela à música “watch”. Com a participação de Vince Staples, esta versão alternativa apresenta um ritmo diferente da original, mais virada para o Hip Hop e para o R&B. Mantendo os versos originais de Eilish, agora juntos com o rap de Staples, “&burn” encerra o primeiro EP da nova artista, que promete revolucionar a indústria da música.



Nota: ⭐⭐⭐⭐

NOTA FINAL
⭐⭐⭐⭐

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