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Série: Wednesday
Wednesday, estreada em 2022 na Netflix, é inspirada no filme de 1991 The Addams Family, criado por Charles Addams. A série de oito episódios foi criada por Alfred Gough e Miles Millar e conta com a participação de Tim Burton na realização. O novo projeto caracteriza-se pelas fortes componentes de mistério e terror, envoltos num coming-of-age com muita comédia satírica à mistura.
A história coloca Wednesday Addams (Jenna Ortega) no centro da narrativa. Depois de o irmão, Pugsley (Isaac Ordonez), ser alvo de bullying por membros da equipa de natação da escola, Wednesday decide retribuir na mesma moeda, colocando piranhas na piscina, que atacam os alunos. Depois de ser expulsa da instituição, Morticia (Catherine Zeta-Jones) e Gomez (Luis Guzmán), os pais da jovem apática, decidem inscrevê-la na Academia Nevermore, onde os mesmos estudaram.
Nevermore é a escola para todos aqueles que são colocados de parte pela sociedade. O leque de alunos é composto por grupos específicos, como vampiros, lobisomens e outros monstros com poderes fantásticos. A instituição é gerida pela diretora Larissa Weems (Gwendoline Christie), responsável por conduzir a educação dos alunos com a ajuda da professora Marilyn Thornhill (Christina Ricci - intérprete de Wednesday Addams no filme original de 1991, The Addams Family).
Enid Sinclair (Emma Myers) é a colega de quarto de Wednesday e ambas não podiam ser mais diferentes. Enquanto Wednesday é apaixonada pela morte, Enid luta contra a própria natureza: tornar-se numa lobisomem. Xavier Thorpe (Percy Hynes White) é um jovem artista que vê as suas criações ganhar vida. Eugene Otinger torna-se amigo da jovem protagonista, ajudando-a durante as suas misteriosas investigações, e Bianca Barclay (Joy Sunday) é a melhor aluna da escola, que vê Wednesday como uma verdadeira rival.
Jericho é a localidade na qual Nevermore se encontra. Os habitantes da cidade não concordam com a presença dos alunos marginalizados na sua pequena sociedade, mas os jovens não se deixam intimidar pelas ameaças constantes. É em Jericho que Wednesday visita a terapeuta Valerie Kinbott (Riki Lindhome), que a auxilia a lidar com as emoções mais profundas e complexas. Na mesma cidade, a protagonista conhece o jovem Tyler Galpin (Hunter Doohan), com quem começa a desenvolver uma relação mais íntima, apesar de o pai do rapaz, o xerife Donovan Galpin (Jamie McShane), não aprovar a ligação entre os dois adolescentes.
As visões de Wednesday são fundamentais para interligar os diferentes arcos narrativos da primeira temporada da série. Da descoberta dos seus poderes sobrenaturais aos segredos da família Addams e mortes misteriosas que assombram os populares de Jericho e os alunos de Nevermore, todas as narrativas se sobrepõem, interligando-se na figura central de Wednesday, papel incrivelmente desempenhado por Jenna Ortega.
A dinâmica familiar que existe entre Wednesday, Morticia, Gomez e Pugsley é simplesmente incrível. A peculiaridade desta família permanece única e marcante. Daqui, destacam-se os momentos hilariantes e apaixonantes entre as duas figuras paternais, seja em que circunstância for. A relação entre os dois irmãos também fica marcada pela diferença - enquanto Wednesday não gosta de demonstrar qualquer tipo de emoção ou afeto, o mais novo assume-se como o elemento mais frágil da família, tentando abraçar a irmã sempre que tem oportunidade.
No entanto, o que distingue verdadeiramente o núcleo familiar de todos os outros é a relação entre mãe e filha. A protagonista começa por se declarar como o oposto total de Morticia, declarando afirmações frias e cruéis no início da história. Porém, o poder de visualizar o futuro é uma marca sobrenatural hereditária e, por isso, torna-se no elemento que inevitavelmente une mãe e filha. O desenvolvimento da relação entre ambas torna-se numa peça chave de toda a temporada.
As relações que Wednesday desenvolve ao longo dos episódios revelam-se interessantes e curiosas, tendo em conta a personalidade mórbida e apática da personagem. Os momentos entre Wednesday e Enid tornam-se inesquecíveis, tendo em conta as distintas personalidades das duas raparigas, criando momentos hilariantes e com frases inesquecíveis.
Bianca surge como a rival inicial da protagonista, funcionando como uma forma de demonstrar a força e o poder de Wednesday contra todos aqueles que se colocam no seu caminho. Por sua vez, Tyler demonstra um lado mais emocional da jovem enigmática e que, habitualmente, segue a sua linha racional. Os momentos a sós entre as os dois revelavam o constrangimento provocado pelo coração frio de Wednesday, que se torna mais quente com a ajuda do rapaz "normal".
Nevermore parece ser o local perfeito para o mistério. Competições mortais, passagens enigmáticas e sociedades secretas: todas elas estão presentes na nova realidade de Wednesday. As pistas para solucionar os principais segredos da história são reveladas aos poucos. Em cada episódio são desvendadas novas informações, dando a possibilidade para o público construir as suas próprias teorias. Com um elenco relativamente pequeno e episódios de longa duração, as revelações finais podem tornar-se previsíveis, mas os últimos twists mantêm-se surpreendentes.
Para além do argumento sólido, Wednesday destaca-se fortemente por todo o ambiente que dá vida à narrativa. Da escola, à cidade e à floresta, todos os locais contribuem para a construção deste universo mágico. A construção dos sets acompanha o nível exímio do guarda roupa, que funciona como uma caracterização das diversas personagens. A iluminação também desempenha um papel fundamental no desenvolvimento da história, encontrando-se presente em todos momentos chave da trama. Da mesma forma, a banda sonora combina pop hits com música clássica que acompanha o crescimento da tensão narrativa. Porém, os mesmos elogios não podem ser tecidos aos efeitos especiais, que por vezes se afastavam do tom realista do novo projeto da Netflix.
"As emoções são uma vulnerabilidade. Levam a sentimentos que provocam lágrimas. Lágrimas não é comigo". É assim que Wednesday se caracteriza a si mesma. A verdade é que, apesar de ser uma weirdo, a jovem revela interesses mórbidos e inusitados, tornando-a numa personagem singular e inesquecível. As suas características podem aproximá-la do público mais jovem, ou, por outro lado, afastá-la da nova geração.
Nota: ⭐⭐⭐⭐⭐
Filme: Moonlight
O tom altera-se quando a câmera acompanha uma criança que corre enquanto foge de um grupo de rapazes. A agitação e o desfoque da imagem refletem o medo e a insegurança que o menino sente até se refugiar no interior de uma casa abandonada. É neste momento que, lá fora, os bullies se fazem ouvir, “enchendo” a cabeça do rapaz de sons agudos e desconhecidos, transmitindo uma sensação de perigo para o público. É neste momento que Juan entra em cena. De início, a criança afasta-se do desconhecido, relutante e desconfiada, no entanto, o homem convence o menino a acompanhá-lo até um café, onde come uma refeição. A criança mantém uma postura defensiva durante toda a cena, aparecendo de cabeça baixa e em silêncio enquanto Juan tenta apurar informações sobre a sua identidade. Ao longo da cena, o enquadramento vai-se fechando cada vez mais, à medida que se aproxima das duas personagens, sendo que o plano individual de cada uma delas se vai alterando em cortes sucessivos, representando a falta de interação e intimidade entre os dois.
É em casa de Juan que a personagem Teresa (Janelle Monáe) é apresentada, como uma jovem mulher simpática, responsável e amável. É na sua presença que a criança revela a sua identidade. O seu nome é Chiron (Alex Hibbert), no entanto, os rapazes da sua escola tratam-no como Little – nome que intitula a primeira parte do filme –, de forma depreciativa. É nesta cena que, pela primeira vez, o espectador ouve a voz de Chiron e conhece o seu nome – o facto de o público receber estas informações ao mesmo tempo que as outras personagens em cena, faz a audiência sentir-se dentro do próprio filme, criando uma sensação de imersão na história. É também neste momento que a câmera se começa a movimentar de forma mais fluída e contínua entre as várias personagens sentadas à volta da mesa, transmitindo a ideia de aproximação.
Quando Juan leva Chiron até casa, o público conhece Paula (Naomie Harris), mãe do menino. Pelo seu discurso e postura, aquela não é a primeira vez que o rapaz desaparece ou passa a noite fora, revelando uma relação disfuncional entre os dois familiares. A mulher rejeita a ajuda de Juan e pede-lhe para se afastar do seu filho, revelando a grande necessidade de controlo sobre o pequeno Chiron, sem, no entanto, ter capacidades para tal. Este é o grande dilema de Paula ao longo do filme: a personagem navega entre ser uma boa mãe para o seu filho, enquanto lida com a dependência de drogas.
Kevin (Jaden Piner) é o único amigo de Chiron. Numa cena onde o grupo de rapazes é apresentado, Chiron é avistado à parte, num plano isolado. No entanto, mais tarde, Kevin aproxima-se do menino, aconselhando-o a não se deixar intimidar pelos outros. Esta é a primeira interação de uma relação íntima entre as duas personagens.
Segue-se uma das cenas mais simbólicas de todo o filme. Na praia, Juan ensina Chiron a nadar no mar. “Hey, I got you lil' man, I got you”, garante o homem mais velho enquanto enumera os passos à criança. No entanto, neste momento, Juan não está a ensinar Chiron apenas a nadar. Juan também o conforta, garantindo-lhe que estará ao seu lado para o resto da vida, auxiliando-o em tudo aquilo que for necessário. Nesta cena, a câmera está colocada à altura da água, fazendo com que o público se sinta presente no local, ao mesmo tempo que a banda sonora de Nicholas Britell se intensifica, exponenciando o valor simbólico de toda a sequência. O momento demonstra também a complexidade da personagem de Juan: para além de ser o líder destemido de uma rede de tráfico de droga, consegue também ser uma figura paternal com uma certa vulnerabilidade. A cena continua fora de água, onde Juan conta, com o som de fundo da maré e da brisa do mar: “This one time... I ran by this old, old lady (…) In moonlight’ she say, ‘black boys look blue. You blue,’ she say.” É este o diálogo que dá título ao filme e serve de mote para toda a história. Na realidade, a luz do luar e a cor azul significam ser verdadeiro, sincero e genuíno. Este é o grande desejo e debate interno de Chiron, assim como das outras personagens durante toda a longa-metragem.
Desamparado, Chiron refugia-se onde se sente realmente confortável: na praia. É à noite, debaixo do luar e junto ao mar, enquanto ouve a maré e a brisa do oceano, que o jovem reencontra o seu amigo Kevin (Jharrel Jerome). Os dois conversam sobre a brisa: “Sometimes round the way, where we live, you can catch this same breeze. It come through the hood and it’s like everything stop for a second ‘cause everybody just wanna feel it. Everything just get quiet, you know?”, afirma Kevin, seguido por Chiron: “And its like all you can hear is your own heartbeat, right?”. Os dois rapazes partilham as suas inseguranças porque, no fundo, sentem-se confortáveis um com o outro. Chiron chega mesmo a dizer: “I cry so much sometimes I think one day I’m gone just turn into drops.”, revelando a sua vulnerabilidade para Kevin. É neste seguimento que os dois partilham um momento mais íntimo e a personagem principal tem a sua primeira experiência sexual. É de notar que toda a transparência e genuinidade demonstrada ao longo desta sequência ocorre sobre a luz do luar, a luz azul, que remete para o mote inicial de todo o filme – ser genuíno e estar em sintonia com a nossa realidade.
O último arco da história tem o nome de “Black”. É assim que, enquanto adulto, Chiron (Trevante Rhodes) é conhecido nas ruas. Fisicamente mais forte e bastante semelhante a Juan, Chiron lidera uma rede de tráfico de droga, exercita o seu corpo para reprimir as suas emoções, vive sozinho e mantem uma relação afastada com a sua mãe abusiva. Ao longo dos diálogos, é revelado que, durante o time jump entre a segunda e a terceira parte do filme, Chiron foi preso por agredir o seu próprio agressor. Depois de cumprir a sua pena, o caminho trilhou-se de forma automática para as ruas da cidade. Parece que, no fundo, a pequena criança tornou-se naquilo que mais temia, reprimindo, ao mesmo tempo, a sua verdadeira essência, a mesma que a sociedade teima em não aceitar. No entanto, tudo parece mudar numa noite em que Chiron recebe a chamada de um velho conhecido. Do outro lado da linha, a voz de Kevin faz-se ouvir ao mesmo tempo que a expressão facial e a postura corporal de Chiron se transformam, passando de um tom mais ereto e rijo para uma forma mais emocional e vulnerável, à medida que o plano se vai fechando no rosto do ator, transmitindo todas as sensações para a audiência.
A última vez que Paula surge na película revela uma faceta completamente diferente daquela explorada até então. Agora a viver num centro de reabilitação, a mãe de Chiron mostra-se arrependida e magoada com o passado e com todo o sofrimento que causou ao próprio filho: “I messed up baby. I fucked it all up, I know that. But yo’ heart ain’t gotta be black like mine, you hear me? I love you baby. I do, I love you Chiron. You ain’t gotta love me, lord knows I didn’t have love for you when you needed it, I know that. So you ain’t gotta love me but you gon’ know that I love you, you hear?” Esta é uma das cenas mais marcantes da longa-metragem, graças à performance apresentada pelos dois atores, responsáveis por transmitirem todas as emoções necessárias para o público que, sem se aperceber, sente que está, de facto, presente no mesmo local que as personagens. Os ângulos por cima dos ombros e os planos fechados, próximos dos rostos das personagens, também ajudam a criar o efeito de proximidade e contacto com a audiência.Esta é também a tentativa de Paula se redimir ao próprio filho, maltratado e abandonando durante grande parte do seu crescimento. No entanto, a mulher acredita que Chiron possa ser melhor que ela, melhor do que aquilo em que ele se transformou enquanto “Black”.
“Moonlight” é uma obra de arte altamente simbólica, subjetiva e introspetiva. A densa narrativa completa-se com os diálogos ricos e profundos entre personagens que apresentam várias camadas e, apesar de serem fictícias, graças ao alto desempenho de todo o elenco, se tornam reais e genuínas, engolindo o público para o interior da narrativa. Esta não é uma história sobre a dependência de drogas, a homossexualidade, a pobreza, o bullying ou os maus-tratos familiares. É uma história sobre o próprio crescimento individual e como as várias fases da vida se sucedem e influenciam umas às outras, quer por motivos externos ou por razões internas.
Nota: ⭐⭐⭐⭐⭐
























