Capítulo 29
A noite no Pokémon Center de
Hammerlocke era habitualmente agitada. Vários turistas chegavam à cidade em
busca de uma cama para descansar, enquanto diversos jovens treinadores acabavam
mais um intenso dia de treinamentos e, consequentemente, aguardavam a sua vez
para receberem os devidos cuidados médicos.
A Enfermeira Joy permanecia, atenta
e séria, atrás do grande balcão do estabelecimento, concentrando-se nas
necessidades únicas de cada utente.
- Boa noite. – cumprimentou a mulher
de cabelo rosa a um novo grupo de jovens que era finalmente atendido. – Em que
vos posso ajudar?
- Olá. – cumprimentou Victor, num
suspiro que revelava cansaço.
- Ainda têm quartos disponíveis? –
Gloria perguntou, ao lado do irmão.
- Idealmente, cada quarto com duas
camas individuais, por favor. – a cabeça de Marnie surgiu por cima dos ombros
dos dois gémeos.
- Também precisamos que dê uma
olhadela aos nossos Pokémon. – falou Bede, penteando levemente o cabelo
platinado.
- Claro que sim. – assentiu a
enfermeira, partilhando a sua atenção entre o computador à sua frente e o grupo
de jovens que aguardava em silêncio os seus pedidos.
Dois pares de passos apressados
aproximaram-se do grupo. Pareciam urgentes, assim como os seus sussurros, que
fizeram o grupo de jovens voltar-se para trás.
- Eu não acredito que combatemos ao
lado daqueles dois patifes! – protestou a ruiva.
- Não tínhamos conhecimento de que
eles já estavam naquela Max Raid Battle… foi uma coincidência estranha, sim.
Mas nós não tivemos qualquer responsabilidade nisso. – sussurrou o moreno.
- Eu só sei que precisamos de uma
boa noite de descanso! Nós e os nossos companheiros. – Sonia levantou o olhar
para a frente, encontrando os rostos de Victor, Gloria, Bede e Marnie voltados
para si. – Por Arceus! – exclamou.
A atenção de Hop voltou-se também
para a sua frente. Encontrou os olhos dos seus antigos companheiros de viagem,
concentrados na sua figura. De imediato, se apercebeu que pareciam cansados e
depois lembrou-se que provavelmente também teria aquele aspeto. Depois reparou
nos pequenos sorrisos que os seus lábios desenhavam. E, então, sentiu um calor
familiar que permanecia adormecido há vários dias.
Victor e Gloria aproximaram-se.
Sonia cumprimentou os gémeos, abraçando cada um deles individualmente. Estava
feliz por voltar a rever aquelas caras jovens e familiares. Tendo em conta a
última vez que tinham estado juntos, este era um momento para se voltarem a
conectar.
- Olá, amigo. – falou Victor, num
tom doce.
- Bons olhos te vejam. – sorriu
Gloria.
- Olá… - disse Hop, sem deixar de
sentir uma ligeira estranheza ao reencontrar os velhos amigos. – Estão com um
ar cansado.
- Vocês também. – a voz de Bede
ouviu-se.
- Foram dias intensos na Wild Area.
– respondeu Sonia.
- Tal como nós! – exclamou Marnie.
- Estão a viajar em conjunto? –
questionou o moreno, com uma expressão um tanto surpresa.
- Encontrámo-nos quando saímos de
Motostoke. – explicou o gémeo, sentindo o ar desconfiando do outro.
- Decidimos juntar forças para
chegar até aqui. – completou Gloria.
- A nossa passagem pela Wild Area
foi… de muita descoberta. – falou Hop, lançando um olhar curioso a Sonia.
- Tenho a certeza de que temos muita
conversa para meter em dia. Mas, acho que precisamos todos de descansar
urgentemente. – falou a ruiva, deixando escapar um pequeno riso. – E se nos
voltássemos a encontrar amanhã? Eu e o Hop vamos visitar o Energy Plant. Podem
acompanhar-nos, se quiserem!
Hop assentiu, confirmando aquilo que
Sonia dissera. Naquele momento, sentia o seu corpo a pedir um banho quente e
uma cama confortável, mas reencontrar os seus amigos fez com que uma réstia de
felicidade e excitação regressasse. Antes julgava sentir a sua falta, mas agora
tinha a certeza.
• • •
Os fantasmas que rondavam as ruas
noturnas de Hammerlocke eram sucedidos por pessoas curiosas que visitavam
aquele local histórico. Toda a cidade era construída dentro das muralhas do
antigo castelo de Hammerlocke, cercada por corredores de água por onde
circulavam pequenos rios, atravessados por pontes de madeira movediças.
Antigamente, era assim que a família
real se protegia a si e ao seu povo. Agora, as memórias que restam do passado
relembram a história da população de Galar.
O coração da cidade era o grande
palácio real. Na verdade, nos tempos antigos, o edifício assemelhava-se mais a
um castelo e era conhecido como Hammerlocke Castle. Porém, após os trágicos
acontecimentos de The Darkest Day, as estruturas sofreram diversas alterações,
pelo que os sucessores mais recentes da corte decidiram alterar a sua
denominação para palácio e, sucessivamente, para Galar Palace. Aproximando,
assim, a família real de toda a população da região.
Galar Palace era uma estrutura
grandiosa repartida por diversas áreas. O edifício residencial da família real
era privado e mais resguardado do público. Diversos seguranças vigiavam os
grandes portões de ferro da mansão. Apenas membros da família real ou
convidados podiam aceder às suas instalações.
O Hammerlocke Stadium, por sua vez,
funcionava na zona pública do edifício, localizada no centro da cidade, fazendo
uso dos grandes terrenos reais, onde assentava o recinto do estádio gigante. Na
mesma área, encontrava-se o Energy Plant, responsável por transmitir energia a
toda a região de Galar.
Era para lá que se dirigiam Victor,
Gloria, Hop, Sonia, Bede e Marnie. Já passava da hora de almoço quando o grupo
decidiu, finalmente, sair do Pokémon Center, onde aproveitaram a manhã para
descansar e relaxar.
Sonia ocupava a dianteira do grupo,
acompanhada por Bede e Marnie que escutavam atentamente as suas explicações e
apontamentos históricos à medida que caminhavam pelas ruas da cidade. Mais
atrás, seguiam Victor, Gloria e Hop. Os gémeos ouviam as palavras do amigo com
todo o entusiasmo. Era bom estarem juntos de novo.
- Só quando descobri que o meu Rotom
Phone estava sem bateria é que me apercebi que estava incontactável. Mas,
depois, a Sonia apareceu.
- Então foi por isso que não
atendeste as nossas chamadas… - concluiu Victor.
- Sim, infelizmente.
- Sou a única a achar tudo isto
irónico? - questionou Gloria. - A tua relação com a Sonia mudou do dia para a
noite. Literalmente.
- É verdade. - o moreno esboçou um
sorriso. - Quando começámos a nossa aventura, não gostava dela por causa do
Leon… parece que agora os papéis se inverteram.
- Como te sentes sobre tudo aquilo?
- perguntou o gémeo, num tom calmo.
- É muita coisa para processar. Só
sei que não estou pronto para lidar com o Leon. E não sei quando estarei.
- Com calma, Hop. - tranquilizou
Gloria. - Nós estamos aqui para ti. Se tu quiseres, claro.
- Quanto a isso… estás pronto para
te juntares a nós, de novo? Viajar sem ti não tem piada! - exclamou Victor.
-
Hm. - murmurou. - Acho que…
-
Sejam muito bem-vindos!
A
voz de Rose ocupou todo o espaço sonoro. Quando os três jovens levantaram a
cabeça, aperceberam-se que já se encontravam na entrada do Energy Plant.
Naquele momento, Sonia cumprimentava Rose e uma mulher de cabelos claros com um
aperto de mão cordial. Bede e Marnie lançavam olhares aos restantes, para que
se aproximassem do grupo. A conversa teria de ficar por ali.
-
Presidente Rose, muito obrigado por nos receber. - agradeceu a ruiva.
-
Ora essa! O gosto é todo nosso. Não é todos os dias que recebemos um comité de
jovens com tanto potencial! - exclamava, enquanto observava atentamente cada
figura à sua frente, que retribua com olhares de respeito e admiração. - Deixem-me apresentar-vos a Oleana. - o seu olhar
voltou-se para a mulher ao seu lado. - A Secretária da Pokémon League,
Vice-Presidente da Macro Cosmos e a grande responsável pela invenção das
Dynamax Band, que cada um de vós carrega.
-
Que gentileza. - Oleana falou num tom firme, esboçando um pequeno sorriso nos
lábios. Os mais jovens observavam-na com atenção, interesse e admiração. -
Bem-vindos ao Energy Plant. Lá dentro, irão encontrar um…
-
Senhor Presidente Rose!
Ouviu-se
uma voz estridente atrás do grupo. Todos se viraram, curiosos por descobrir
quem se dignava a interromper o discurso de Oleana. Uma rapariga de cabelo rosa
e com um laço na cabeça corria na direção da pequena plateia. Os seus olhos
pareciam reluzir à medida que se aproximava de Rose.
-
Klara! Por favor, eu disse-te para teres calma.
Outro
rapaz seguia atrás da jovem. O seu cabelo, loiro e comprido, caía-lhe pelos
ombros. Na cabeça segurava uma grande cartola que chamava a atenção de todos à
sua volta.
-
Eu disse-te que o íamos encontrar aqui. - murmurou a outra, como se mais
ninguém ali estivesse.
-
Mas não é assim que se abordam as pessoas… - Avery tinha as bochechas rosadas.
- Pedimos desculpa pelo incómodo. - falou, dirigindo-se finalmente aos
presentes.
-
Ora… a que se deve tanto entusiasmo? - questionou Rose.
-
Sou uma grande fã! - exclamou Klara. - Queria finalmente conhecê-lo
pessoalmente.
-
Aqui estou! - riu o homem. - Obrigado pelo voto de confiança. - sorriu. - E
quem são os meus leais seguidores?
-
O meu nome é Klara. E este é o Avery. - respondeu.
-
Somos Treinadores Pokémon. - completou. - Os Psychic-Type são a minha especialidade. A Klara deixa-se encantar
pelos Poison-Type.
- Para além disso, também desejo ser
uma grande estrela da música!
- Acredito que todos vocês serão
grandes influências em Galar, no futuro. - sorriu Rose. - Mas bom, já aqui
estão, talvez se possam juntar ao grupo e visitar todos juntos o Energy Plant.
Sonia lançou um olhar de soslaio aos
restantes elementos. Alguns deles ainda pareciam confusos com aquela
interrupção e energia caótica. Outros, pareciam mais curiosos e interessados em
dar-se a conhecer.
-
Penso que não haverá problema. - afirmou a ruiva. - Aproveitem para se
conhecerem. Avery, Klara. Estes são Victor e Gloria, irmãos gémeos de Postwick.
- dizia, apontando para eles e sorrindo. - Depois temos Hop, o irmão mais novo
de Leon, o atual Campeão de Galar. - de imediato se arrependera de o apresentar
daquela maneira, atendendo à forma como o mesmo reagira, com uma expressão
séria e fechada. - Bede é um apaixonado por Pokémon Fairy-Type. - o platinado acenou com a cabeça, com um olhar sério.
- E, por fim, Marnie. Especializada em Dark-Type
e irmã de Piers, Líder de Ginásio Spikemuth. - a jovem esboçou um sorriso
simpático.
Klara
ficava deslumbrada cada vez que Sonia mencionava nomes conhecidos. Para a
jovem, natural de Spikemuth, Piers era uma grande referência. Assim como Leon,
que a própria acompanhara, de longe e através da televisão, ao longo da sua
jornada até ao topo da Pokémon League. Avery, por sua vez, permanecia mais
sereno, não deixando revelar mais do que admiração e simpatia por todos os
presentes.
- Agora que estão todos
apresentados, presumo que possa regressar ao ponto anterior. - falou Oleana,
retomando as rédeas da situação. - Atrás destas portas, vamos encontrar o
Energy Plant, liderado por cientistas da Macro Cosmos.
- O meu patrocinador. - murmurou
Bede, com um tom orgulhoso.
- Exatamente. - confirmou Rose.
- Entremos, finalmente, para
descobrir um pouco mais do trabalho que aqui é desenvolvido.
Oleana assumiu a liderança do grupo,
partindo na frente de todos. Retirou um cartão magnético do bolso da sua bata
branca e passou-o na ranhura da porta. Apenas as pessoas que tinham autorização
podiam aceder ao interior do edifício. Ouviu-se a porta a desbloquear e, logo a
seguir, a mesma abriu-se sozinha. Rose e Oleana passaram de imediato, seguidos
pelos oito jovens. Depois de todos entrarem, a porta fechou-se automaticamente.
O corredor era escuro, iluminado por
pequenos holofotes no chão. As paredes de metal pareciam emitir um ruído
constante. No seu interior, a energia circulava por cabos e fios de tamanhos
diversos. O grupo caminhou durante alguns segundos até chegar a um átrio em
forma de quadrado. Na parede em frente, a porta de um elevador ganhava forma.
Nas outras duas paredes, portas envidraçadas apresentavam dois grandes
laboratórios, onde diversos cientistas trabalhavam de forma concentrada. Todas
as portas eram de acesso privado e exclusivo.
- É aqui que a magia acontece. -
anunciou o homem, erguendo os dois braços.
- No interior destes laboratórios,
os cientistas da Macro Cosmos transformam a energia extraída das Galar Mine em
eletricidade. Esta eletricidade é responsável por alimentar o grande gerador
que faz chegar a energia a toda a região de Galar.
- Fantástico! - exclamou Victor,
olhando em volta.
- Tudo começa e acaba aqui. -
murmurou Hop, fitando a porta do elevador ao fundo do corredor.
- E onde se localiza o grande
gerador? - questionou Sonia.
- Questão bastante pertinente. -
afirmou Oleana, com um pequeno sorriso no rosto. - Estamos mesmo em cima dele.
- Oh! - exclamou Gloria.
- Está devidamente protegido. -
completou Rose. - Apenas um restrito círculo de pessoas tem acesso ao gerador.
Como podem imaginar, é um dos recursos mais valiosos que possuímos. Como tal,
não está aberto para visitas externas..
- O que acontece se o gerador
falhar? - questionou Marnie.
- Galar fica sem energia. -
respondeu Bede, prontamente.
- Esperemos que isso nunca aconteça!
- exclamou Klara, colocando a mão no peito de forma dramática.
- Este gerador… - falou Avery. - É o
mesmo responsável por fazer chegar a energia a Isle of Armor?
- É sim. - assentiu a mulher de
cabelo louro. - Utilizamos cabos submarinos, devidamente protegidos e
revestidos, para fazer chegar a eletricidade à ilha.
- Isle of Armor… - repetiu Victor. -
Não é aí que se localiza o Master Dojo?
- Sim! Nós estudámos lá! - exclamou
a jovem de cabelo rosa, entusiasmada.
- Uau! - Hop parecia curioso. - Um
dia quero ir até lá!
A atenção voltou-se para a Poké Ball
que saltara da mala de Gloria. A figura de Dottler iluminou o local. O Pokémon
começou a circular pelos presentes e aproximou-se de uma das portas dos
laboratórios. Observava o seu interior com admiração e curiosidade. Os seus
olhos começaram a brilhar num tom encarnado à medida que a criatura armazenava
toda a informação presente à sua frente.
- Dottler! - protestou a rapariga,
correndo na sua direção. - Por Arceus, o que pensas que estás a fazer?!
- Parece interessado. - apontou
Marnie.
- Peço imensa desculpa. -
lamentou-se a jovem, segurando o Pokémon entre o seu peito e os dois braços. -
O Dottler não costuma fazer estas coisas.
- Não há nada a lamentar. - falou
Oleana, aproximando-se. - A curiosidade é uma boa estratégia de
desenvolvimento. E o teu Dottler parece bastante entusiasmado por conhecer o
trabalho dos cientistas.
- Não fazia ideia…
- Os Pokémon também têm as suas
paixões. Tal como nós. - a mulher esboçou um pequeno sorriso. - Talvez pudesses
deixar o Dottler experimentar um Poké Job com os cientistas da Macro Cosmos.
- Isso é possível?
- Claro que sim! - respondeu Rose. - Todas as pessoas que detêm, pelo menos, um Pokémon podem enviá-los para um Poké Job. Há diversos postos de trabalho disponíveis. As áreas e as durações também são variáveis. - explicou o homem.
-
O capitalismo no seu melhor… - murmurou Sonia entre dentes.
-
É uma forma dinâmica e inovadora dos Pokémon ganharem experiência e novas
capacidades. - completou.
-
Parece-me interessante. - assentiu Gloria. - Mas, não sei se conseguiria
sobreviver sem o Dottler comigo durante muito tempo.
-
A decisão é tua.
-
Antes de tomares uma decisão. Gostaria de desafiar-te para um duelo. - era
Avery quem falava, recebendo olhares surpresos dos restantes.
-
Combater comigo?
-
Exatamente. - confirmou. - Sou apaixonado por Psychic-Type, por isso, gostaria de testar os dotes psíquicos do
teu Dottler.
-
Um teste, portanto? - riu a jovem. - Vamos a isso.
• • •
O
elevador conduziu o grupo até ao rooftop
do edifício, onde um recinto de combate os aguardava. O sol começava a baixar
no horizonte à medida que todos os elementos ocupavam os seus lugares. Gloria e
Dottler instalavam-se num lado, enquanto Avery e Abra se posicionavam do lado
oposto do campo. Atrás das linhas, Victor, Hop, Sonia, Bede, Marnie, Avery,
Klara e Rose aguardavam com entusiasmo o início do confronto. Oleana, por sua
vez, aproximava-se do centro do campo de batalha.
-
Estão prontos para dar início ao combate? - questionou, recebendo um aceno
afirmativo dos dois lados. - Cada Treinador poderá usar um Pokémon à sua
escolha. Que vença o melhor! - exclamou, levantando os braços no ar e
afastando-se para as linhas laterais,
Dottler
e Abra posicionaram-se em frente aos dois jovens. Os seus olhares cruzavam-se,
atravessando o recinto de combate de um polo a outro. Dottler registava todas
as informações ao seu redor, enquanto Abra parecia levitar adormecido.
-
Dottler, começa com Light Screen.
Uma
barreira brilhante surgiu em frente aos olhos encarnados do grande casulo.
Aquela técnica era responsável por diminuir o poder de ataque das técnicas
especiais lançadas pelo adversário,
-
Ataca. - a voz de Avery saiu firme, surpreendendo a adversária.
Abra
despertou finalmente e saiu disparado na direção de Dottler. O seu punho, que
começava a reluzir numa luz forte, desferiu um duro golpe na figura de Dottler
que se deixou arrastar durante alguns metros. Apesar da técnica Drain Punch não ser super-efetiva contra
o Bug-Type, Gloria sentiu a força
irradiante dos adversários.
-
Confusion!
Os
olhos de Dottler voltaram a reluzir numa cor encarnada, penetrando a figura de
Abra que agora era iluminada por uma luz da mesma cor. O pequeno inseto
concentrou as suas energias para fazer rodopiar o corpo do Psychic-Type no ar, mas este antecipou-se, escapando-se com um
fugaz Teleport.
-
Muito bem! - exclamou o jovem treinador, orgulhoso. - Volta a usar Drain Punch.
Gloria
cerrou o punho e manteve-se em silêncio enquanto observava a figura do
adversário ganhar força enquanto corria na sua direção. Do lado de fora das
linhas de combate, os espectador surpreendiam-se com as técnicas utilizadas.
-
Ela não vai fazer nada?! - Marnie parecia preocupada.
-
Não me parece. - murmurou Victor, sem perder a confiança na irmã.
-
Struggle Bug!
Dottler
aproveitou-se da proximidade de Abra para contra-atacar. Por sua vez, a mordida
do pequeno inseto revela-se mais forte do que a técnica utilizada pelo
adversário, que sofria agora graves danos com um ataque super-efetivo. Abra
caiu de costas no recinto, sentindo a dor invadir todo o seu corpo.
-
Abra! - chamou Avery. - Força! Este desafio ainda não acabou!
A
criatura deixou escapar alguns grunhidos. Mexia o seu corpo no chão. Tentava
levantar-se, mas, em simultâneo, contorcia-se de dores. Sentiu um longo
formigueiro invadir toda a sua figura, antes de uma luz incandescente invadir o
campo de batalha. O corpo do Pokémon começou a crescer e quando, finalmente, a
luz se dissipou, uma criatura diferente ocupava o seu lugar.
- Kadabra, um Pokémon Psychic-Type. - o rapaz já segurava o
seu Rotom Phone, conferindo as novas atualizações do seu Pokémon Inicial. - Usa
as suas habilidades psíquicas para levitar enquanto dorme, utilizando a cauda
como almofada. Os seus poderes psíquicos são armazenados na estrela que detém
na testa.
Uma criatura humanoide de corpo
amarelo surgiu no lugar do pequeno Abra. No topo da cabeça existiam duas
orelhas longas e pontiagudas. Logo abaixo, no centro da testa, destacava-se uma
estrela vermelha. No seu rosto, dois longos bigodes estendiam-se até ao peito.
Os ombros e abdominais castanhos e grossos contrastavam com os membros
inferiores finos e estreitos, que terminavam em três garras brancas. Na parte
de trás do seu corpo, surgia uma cauda grande e grossa. Na mão direita,
segurava uma colher de prata, responsável por amplificar os seus poderes
psíquicos.
Gloria observava atentamente a
fisionomia do Pokémon adversário. Agora era notoriamente maior que Dottler, o
que se tornava ligeiramente ameaçador. A jovem voltou a atenção para o Bug-Type, que fitava curiosamente a
criatura do outro lado do recinto, reunindo todas as suas informações.
-
O desafio continua! -
exclamou, retomando o confronto. - Confusion.
- Protect.
Uma barreira de energia surgiu em
frente ao corpo do Psychic-Type, que
se protegeu de forma bem sucedida contra a técnica utilizada. O seu olhar
focou-se na figura de Dottler. Conseguiam entender-se telepaticamente, através
das suas energias psíquicas.
- Struggle Bug!
O Bug-Type lançou-se na direção da criatura humanoide, que se
esquivou sem grande dificuldade.
Do outro lado do campo de batalha,
diversas Poké Balls começaram a levitar em redor da cartola preta de Avery.
Parecia que a energia psíquica que irradiava daquele confronto se refletia
naqueles objetos. Gloria surpreendeu-se com aquela manobra de distração, que
parecia surtir os efeitos desejados.
- Disable.
Os olhos de Kadabra começaram a
brilhar num tom encarnado. Do outro lado do recinto, a figura de Dottler foi
iluminada por um contorno da mesma cor, fazendo o Bug-Type estremecer. Aquela técnica bloqueava o último ataque
utilizado, Struggle Bug.
Gloria percebeu, finalmente, que a
tática de Avery era bloquear todas as suas tentativas de ataque. Agora restava
apenas uma técnica Psychic-Type, que
não causava grandes danos no adversário, e duas habilidades defensivas. A jovem
treinadora cerrou o punho, sentindo-se encurralada.
- Oh não. - murmurou Sonia.
- Ele meteu a Gloria num canto. -
disse Hop.
- Ainda tens muito para aprender
sobre Psychic-Type! - atirou Avery,
levantando os braços no ar. - Kadabra, Psybeam.
O Pokémon ergueu a colher no ar, segurando-a
com as duas garras. Fechou os olhos e concentrou toda a sua energia num raio
púrpura que disparou do objeto, atingindo o corpo de Dottler com violência. O Bug-Type sentiu o seu corpo enfraquecer
drasticamente à medida que a sua cabeça começava a andar à roda. Os efeitos
secundários da técnica utilizada começavam a fazer-se sentir.
- Oh não! - protestou a rapariga,
observando a figura do seu Pokémon.
-
Confusão instalada. Hora
de acabar com isto. Drain Punch.
Kadabra utilizou o teletransporte
para se aproximar do adversário sem qualquer hesitação. Cerrou o punho, puxou-o
atrás e lançou-o na direção de Dottler, arremessando-o tragicamente contra o
chão. O Bug-Type deixou escapar um
longo gemido antes de ficar inconsciente aos pés da jovem treinadora.
Gloria estava incrédula. O seu olhar
dividia-se entre a figura imperativa de Kadabra e o ar frágil de Dottler.
Lamentava ter colocado o seu Pokémon numa posição tão vulnerável como aquela. E
estava irritada por se ter deixado manipular por Avery, que acabara por liderar
a batalha tal como um mágico manipula a sua audiência, fazendo-a acreditar nos
seus truques.
- Dottler está inconsciente. Avery e
Kadabra são os grandes vencedores! - afirmou Oleana, de regresso ao centro do
recinto de combate.
A mulher voltou-se na direção de
Gloria, agora ajoelhada sobre a figura de Dottler. Na mão, carregava um Super
Potion, que ofereceu à jovem entristecida.
- Obrigado. - murmurou, aceitando a
oferta e borrifando o produto sobre o corpo do Pokémon, que começou a despertar
lentamente. - Peço muita desculpa, Dottler.
- Não. Não peças desculpa. - a voz
de Oleana era forte e grave. Gloria levantou o seu olhar confuso para a mulher.
- Como esperas que os teus Pokémon ganhem experiência sem lidarem com as
derrotas?
- Mas… eu falhei. O Avery passou-me
a perna.
- Certo. É para isso que estes
confrontos servem. Aprender. Crescer. Melhorar.
Gloria calou-se. Não tinha mais
forças para enfrentar a persistência de Oleana. Mas ainda tinha uma coisa por
fazer.
-
Dottler. - murmurou, pegando na criatura com as duas mãos. - O teu esforço e
dedicação foram notáveis. - o Pokémon deixou escapar pequenos grunhidos de
exclamação. - Acho que devias experimentar um Poké Job com os cientistas do
Energy Plant. O que te parece? Talvez por um dia.
Os
olhos do Bug-Type reluziram como
resposta e a jovem esboçou um sorriso.
-
Parece que estão de acordo. - falou Oleana.
-
Porta-te bem. - disse, antes de retroceder a figura do Pokémon para o interior
da Poké Ball.
Gloria
esticou o braço, entregando a esfera bicolor a Oleana, que a aceitou com
cuidado. A loura fitou o objeto por alguns segundos, voltando-se para encontrar
o rosto da mais nova.
-
Dar espaço para os nossos Pokémon crescerem é essencial. Espero que saibas que
aquilo que estás a fazer é importantíssimo para o Dottler. E para ti também. -
falou. - Tenho a certeza que também tens outras paixões que gostarias de
explorar, Gloria. - a jovem piscou os olhos e permaneceu em silêncio,
surpreendida com a veracidade das palavras daquela mulher desconhecida. -
Vemo-nos amanhã.
A
Treinadora de Postwick ficou a observar a figura de Oleana afastar-se,
segurando a Poké Ball de Dottler na sua mão. Rose juntou-se a ela,
acompanhando-a na caminhada com o céu alaranjado como tela de fundo. Do outro
lado, o grupo de jovens aproximava-se da amiga, que permanecia alheia a tudo o
resto que se passava em seu redor. A sua cabeça estava ocupada em tentar
perceber como Oleana a entendia tão bem. Finalmente, sentia-se compreendida.
Galarian Tales | Nunca te esqueças de mim
A
lua pairava por entre as muralhas do castelo de Hammerlocke. As ruas da cidade
eram invadidas pelas sombras recortadas do edifício, que contrastavam com a
iluminação dos altos candeeiros. O movimento nas avenidas começava a diminuir,
mas as almas noturnas insistiam em marcar presença entre o silêncio e a
escuridão da noite.
Um
rapaz de cabelo negro vagueava pelas redondezas do castelo. Os seus olhos roxos
espreitavam por detrás de uma máscara sem expressão que escondia os traços do
seu rosto. A roupa de tons escuros camuflava-se pelas sombras da rua.
Observava, de forma calma e curiosa, a arquitetura do grande edifício.
Permanecia em silêncio, atento a cada som e movimento que surgisse ao seu
redor. Parecia querer passar despercebido, como se evitasse qualquer contacto
humano.
-
Não é lindo?
O
jovem saltou. O seu corpo voltou-se de forma automática na direção da voz que o
surpreendera. Os olhos esbugalhados pareciam querer saltar do seu rosto, à
medida que encontravam a figura feminina a quem pertencia aquele timbre.
A
rapariga permanecia imóvel, de braços esticados ao lado do tronco. O seu corpo
era iluminado pelos candeeiros da rua, mas o rosto escondia-se pelas sombras.
Usava um vestido longo de cor púrpura que tapava os seus pés. O cabelo
azul-escuro, comprido e despenteado, caía-lhe pelos ombros. Parecia calma, mas
tensa, observando a figura do rapaz com atenção.
O
jovem hesitou, observando em redor. Não havia ali mais ninguém. A rua estava
deserta. Apenas ele e uma menina, que parecia ser alguns anos mais nova.
Estranhou a sua presença naquele local e àquelas horas da noite. Poderia estar
perdida, mas a forma como se apresentava era demasiado tranquila.
- S-sim. – murmurou ele, receoso. –
É historicamente belo.
- Peço desculpa se te assustei. – o
rapaz permaneceu em silêncio, fitando a menina emudecida. – Gosto de observar o
castelo à noite. Tu também?
- Sim. – balbuciou, surpreendido com
a ingenuidade que a voz da outra revelava.
- Tudo muda, mas o castelo de
Hammerlocke permanece igual há décadas. – o seu olhar arrastava-se pelas
muralhas do edifício, mas logo se voltou a concentrar na figura do jovem
silencioso. – Gosto da tua máscara.
- Oh. Obrigado. – o ar de surpresa
por receber tal elogio era evidente. Habitualmente, as pessoas questionavam e
protestavam a utilização da máscara que cobria o seu rosto. Mas aquela rapariga
era diferente.
- O que fazes por aqui? Acho que é a
primeira vez que te vejo.
- Sou um Treinador Pokémon. –
respondeu. Continuava a surpreender-se com a ingenuidade da jovem curiosa. No
entanto, por algum motivo, sentia-se confortável na sua presença.
- Um Treinador Pokémon? – repetiu.
-
Sim. – murmurou, fitando o vestido púrpura que arrastava no chão. – No fundo, é
alguém que parte numa viagem, acompanhado por Pokémon, rumo a um objetivo
específico.
-
E qual é o teu objetivo?
O
rapaz permaneceu em silêncio por alguns segundos, sentindo o olhar da jovem
desconhecida analisar a expressão pensativa no seu rosto.
-
Testar-me. Conseguir ultrapassar os meus medos.
-
Tens medo de quê?
-
Oh. Nada. – abanou a cabeça. – Esquece.
-
Seja o que for, espero que consigas enfrentar isso.
-
Obrigado. – assentiu e olhou em redor. Procurava algo que o pudesse ajudar a
escapar-se daquele encontro inusitado. Voltava a sentir-se desconfortável por
uma estranha lhe colocar tantas questões. – Parece que está na altura de ir…
-
Espera! – exclamou a rapariga, dando um passo em frente, fazendo com que o
jovem desse outro para trás. – Disseste que os Treinadores Pokémon partem numa
viagem. Então… tu estás a viajar, é isso?
-
S-sim. – respondeu, ainda surpreso com o movimento precipitado da jovem.
-
Será que me podes ajudar? – levou a mão até ao bolso do seu vestido, retirando
um envelope de papel amarelado do seu interior. – Preciso que entregues isto a
um grande amigo meu.
-
Oh. – o seu olhar voltou-se para o envelope antigo que a jovem erguia. – E onde
posso encontrar o teu amigo?
-
O nome dele é Frank. – murmurou. – Da última vez que estivemos juntos, ele
disse-me que o poderia encontrar em Ballonlea.
-
Certo. Ballonlea não fica muito longe. – respondeu. – E por que não o entregas
tu mesma?
-
Oh. Eu não posso sair de Hammerlocke…
O
jovem assentiu com a cabeça. Não tinha a mesma ingenuidade que a outra para lhe
perguntar o motivo de não poder sair da cidade, mas imaginou que pudesse ser
uma questão familiar.
-
Sendo assim, acho que te consigo ajudar.
O
rapaz aproximou-se, esticou o braço e pegou no envelope amarelado. Por breves
segundos, conseguiu vislumbrar os olhos negros da menina. Atrás dos seus
cabelos longos e azuis, pareciam parados, submersos, sem transmitir qualquer
sentimento. Mas a jovem voltou a esconder o rosto pelas sombras da rua e o
Treinador Pokémon recuou, voltando a ocupar o seu lugar inicial.
-
Muito obrigado. – a voz da jovem ganhou um tom doce. – Espero que o Frank não
se tenha esquecido de mim.
-
Se lhe disser o teu nome, talvez isso possa ajudar.
-
Sim! – exclamou. – Cabeça a minha… nem me apresentei. O meu nome é Paula.
-
Paula. – repetiu. – Não te preocupes, irei entregar a carta ao teu amigo Frank.
-
Ser-te-ei eternamente grata. – falou, unindo as mãos junto ao tecido do
vestido.
-
É melhor pôr-me a caminho. – disse, arrumando a carta num dos seus bolsos.
-
Gostas de viajar durante a noite?
-
Sim. É tudo mais sossegado.
-
E não tens medo da noite?
-
Não. Sinto-me em paz. – falou, tranquilamente.
-
Uau. – a menina afastou-se ligeiramente. – Sendo assim, é melhor deixar-te ir.
-
Vemo-nos em breve.
O
rapaz virou costas e voltou a encontrar a rua escura, iluminada pelos altos
candeeiros da cidade. Quando começou a caminhar, voltou a ouvir a voz da jovem
atrás de si.
-
Nem te perguntei. Como te chamas?
O
Treinador Pokémon parou, com um pé à frente do outro, e respondeu, sem se
voltar para trás.
-
Allister.
•
• •
As
portas automáticas do Pokémon Center abriram-se. A figura do rapaz mascarado,
anteriormente iluminada pelas luzes artificiais do edifício, passou a receber a
luz natural dos cogumelos que irradiavam pelas ruas de Ballonlea. A cidade,
naturalmente escura e sombria, era espontaneamente composta por elementos da
floresta. Tal facto, afastava a maioria das pessoas daquele local. Mas Allister
contrariou a sua personalidade receosa e avançou à descoberta.
Depois
de fazer algumas questões aos funcionários do Pokémon Center, o jovem sabia
exatamente o que procurar. E não demorou a encontrar a casa de arquitetura
tradicional camponesa cuja entrada era decorada com dois cogumelos que
irradiavam as cores verde e azul.
De
forma calma, aproximou-se do passeio em pedra que se delineava até à entrada do
edifício. Reparou, de imediato, na presença de um rapaz de cabelo claro. O
jovem fechava o pequeno correio que se encontrava junto à entrada da casa.
Allister aclarou a garganta, ganhando coragem para falar com o desconhecido.
-
Boa noite. – saudou, de forma educada. – Estou à procura de uma pessoa chamada
Frank. Disseram-me que o podia encontrar aqui.
-
Olá! – exclamou o jovem, virando-se e observando a figura de Allister com
atenção e curiosidade. – Uau. Que grande máscara! Vais para alguma festa?
-
Oh. Não. – murmurou o Treinador Pokémon, retraindo-se de imediato com o
comentário. – Talvez me deva ir embora…
-
Espera! – pediu o outro, à medida que Allister começava a caminhar na direção
contrária. – O meu avô chama-se Frank.
O
rapaz parou de imediato, espreitando por cima do ombro. O menino permanecia em
silêncio, a olhar para a sua figura peculiar. Revelava, em simultâneo,
curiosidade e relutância. Afinal, não era todos os dias que encontrava uma
pessoa a usar uma máscara que cobria todo o seu rosto.
-
O teu avô? – repetiu Allister.
-
Sim. Ele está lá dentro. – apontou para o interior do edifício. – Queres
entrar?
O
Treinador Pokémon assentiu e acompanhou o mais novo. Caminharam em silêncio até
ao interior da casa. O salão de entrada era composto por um grande espelho,
plantas verdejantes e uma das paredes estava cheia de fotografias de família. O
jovem fechou a porta atrás de si. Allister observava atentamente o local.
-
Avô! – chamou. – Está aqui uma pessoa que quer falar contigo.
Não
demorou até que um senhor idoso aparecesse na divisão. Usava uma camisa branca
e um colete castanho. As calças cinzentas contrastavam com os sapatos
ortopédicos pretos. Na cabeça, trazia uma boina castanha. O seu olhos concentraram-se
na figura do desconhecido mascarado, fazendo o seu bigode arrebitar ligeiramente.
-
Olá, meu jovem. – cumprimentou o senhor, aproximando-se e estendendo a mão.
Allister
hesitou por alguns momentos. Evitava contacto humano a todo o custo. Mas depois
da insistência do mais velho, esticou o braço, apertando a sua mão.
-
O-olá, senhor. Estou à procura de uma pessoa chamada Frank. No Pokémon Center
disseram-me que o poderia encontrar aqui, mas talvez tenha percebido mal as
direções…
-
Nada disso. – respondeu. – Estás no sítio certo, rapaz. O meu nome é Frank.
Allister
esboçou um olhar confuso. Havia alguma coisa que não fazia sentido.
-
Estranho. Conheci uma menina em Hammerlocke que me falou de um amigo chamado
Frank… - fez uma pausa. – Hm. Estava à espera de alguém mais… jovem.
-
Uma rapariga em Hammerlocke? – repetiu o outro.
-
Sim. O nome dela é Paula.
Os
olhos do velho saltaram do seu rosto. A sua expressão facial alterou-se por
completo. Parecia confuso, surpreendido e incrédulo ao mesmo tempo.
-
Não é possível! – exclamou assustado. – A Paula era uma amiga da minha
infância, quando eu ainda morava em Hammerlocke com os meus falecidos pais. A
última vez que a vi, antes de nos mudarmos para Ballonlea, ela estava
gravemente doente.
-
Não estou a perceber, senhor…
-
Jovem, a minha amiga Paula morreu há décadas! – gritou. – Que tipo de
brincadeira é esta? – Frank começava a ficar cada vez mais agitado.
-
Senhor, juro-lhe que estou a dizer a verdade. – disse Allister. – A própria
Paula deu-me uma carta para a entregar a si. – colocou a mão ao bolso e retirou
o envelope amarelado do seu interior. – Aqui está.
Frank
recebeu o envelope de papel, abrindo-o rapidamente. Desdobrou a folha que se
encontrava no interior e, de imediato, começou a ler o seu conteúdo. Não
demorou até que os olhos do idoso se enchessem de lágrimas. A emoção que sentia
à medida que lia uma nova entrada daquela carta de amor antiga era inexplicável.
As suas mãos começaram a tremer, revelando um homem comovente, que recordava as
memórias de uma paixão perdida.
-
Avô… tem calma. – pediu o neto, que permanecia em silêncio.
-
Isto não é possível. Como é que…
As
lágrimas rolavam agora pelo rosto de Frank. As palavras de Paula relembravam a
infância dos dois e as promessas que, por motivos alheios, nunca chegaram a ser
cumpridas. Era uma vida que já tinha passado. E agora restavam apenas as memórias
escritas.
-
Lamento muito, senhor Frank. – falou Allister. – A minha intenção não era
deixá-lo assim.
-
“Se estás a ler isto, é porque a minha hora chegou. Nunca te esqueças de mim,
querido Frank”. – leu o homem, entre soluços.
O
mais novo agarrou-se ao avô e envolveu-o num abraço, na tentativa de o
reconfortar. Frank continuava a soluçar, com o rosto voltado para a parede
decorada com fotografias antigas. Numa delas, o jovem Frank segurava a mão de
Paula. Allister voltou o olhar para o retrato e deixou a boca abrir-se,
espantado. A rapariga que ele encontrara em Hammerlocke era exatamente a mesma
daquela fotografia, captada há décadas. O Treinador Pokémon voltou o olhar para
o avô e o neto.
-
Mais uma vez, peço desculpa.
Allister
virou costas, abriu a porta de casa e saiu para a rua, voltando a encontrar a
noite sombria. Caminhou pelas ruas de Ballonlea, absorto de tudo o que
acontecia à sua volta. Tentava fazer sentido de toda aquela situação
inexplicável. Mas parecia logicamente impossível.
• • •
Uma criatura de corpo roxo
flutuava pelas ruas noturnas de Hammerlocke. O seu rosto, composto por dois
olhos grandes e triangulares e uma boca afiada, era formado por gás, que
produzia formas incoerentes e aleatórias. Existiam ainda duas mãos, cada uma
com três dedos afiados, que levitavam ao lado do rosto do Pokémon.
Atrás da criatura, que
rondava as fronteiras do grande castelo da cidade, surgia Allister. Os seus
olhos observavam todo o local em redor com a máxima atenção. Parecia procurar
algo ou alguém.
- Haunter, foi mesmo aqui que
nos encontrámos. – falou. – Consegues sentir alguma coisa?
O Pokémon assentiu e levantou
um dedo, pedido ao jovem para aguardar. Momentos mais tarde, a grande língua de
Haunter lambeu o ar. Allister estremeceu, mas logo percebeu o que se passava.
Ao lado do Ghost-Type,
surgiu um tecido púrpura, que ganhou a forma de um vestido. De seguida, o corpo
e o rosto empalidecido de Paula emergiram. A rapariga, de olhos negros sem
vida, levitava pelo ar. Os braços caíam ao lado do tronco, enquanto a cabeça,
ligeiramente tombada, fixava a figura de Allister.
O jovem sentiu o seu corpo
estremecer. Tentou mexer-se ou falar, mas todos os músculos permaneciam
imóveis. A ansiedade, a estranheza e o medo tomavam conta do acontecimento
sobrenatural.
- Obrigado. – murmurou Paula.
A sua voz ecoou pela rua
gelada de Hammerlocke. Antes de Allister conseguir sequer reagir, o corpo da
rapariga dissipou-se no ar, desaparecendo por completo. O Treinador Pokémon
permaneceu imóvel e Haunter voltou a sua atenção para o rapaz petrificado. O
Pokémon conseguia sentir o seu pavor.
- O que raios acabou de acontecer!? – falou finalmente, fitando as muralhas do castelo com milhares de histórias por contar.
Galarian Tales
Título: Galarian Tales
Classificação: + 12
Géneros: Aventura, Ação, Drama, Mistério, Romance, Comédia
Galarian Tales recorda as histórias perdidas da região de Galar. Contos familiares, lendas mitológicas, personagens singulares e heróis do passado compõem as páginas deste livro intemporal.
Série: Wednesday
Wednesday, estreada em 2022 na Netflix, é inspirada no filme de 1991 The Addams Family, criado por Charles Addams. A série de oito episódios foi criada por Alfred Gough e Miles Millar e conta com a participação de Tim Burton na realização. O novo projeto caracteriza-se pelas fortes componentes de mistério e terror, envoltos num coming-of-age com muita comédia satírica à mistura.
A história coloca Wednesday Addams (Jenna Ortega) no centro da narrativa. Depois de o irmão, Pugsley (Isaac Ordonez), ser alvo de bullying por membros da equipa de natação da escola, Wednesday decide retribuir na mesma moeda, colocando piranhas na piscina, que atacam os alunos. Depois de ser expulsa da instituição, Morticia (Catherine Zeta-Jones) e Gomez (Luis Guzmán), os pais da jovem apática, decidem inscrevê-la na Academia Nevermore, onde os mesmos estudaram.
Nevermore é a escola para todos aqueles que são colocados de parte pela sociedade. O leque de alunos é composto por grupos específicos, como vampiros, lobisomens e outros monstros com poderes fantásticos. A instituição é gerida pela diretora Larissa Weems (Gwendoline Christie), responsável por conduzir a educação dos alunos com a ajuda da professora Marilyn Thornhill (Christina Ricci - intérprete de Wednesday Addams no filme original de 1991, The Addams Family).
Enid Sinclair (Emma Myers) é a colega de quarto de Wednesday e ambas não podiam ser mais diferentes. Enquanto Wednesday é apaixonada pela morte, Enid luta contra a própria natureza: tornar-se numa lobisomem. Xavier Thorpe (Percy Hynes White) é um jovem artista que vê as suas criações ganhar vida. Eugene Otinger torna-se amigo da jovem protagonista, ajudando-a durante as suas misteriosas investigações, e Bianca Barclay (Joy Sunday) é a melhor aluna da escola, que vê Wednesday como uma verdadeira rival.
Jericho é a localidade na qual Nevermore se encontra. Os habitantes da cidade não concordam com a presença dos alunos marginalizados na sua pequena sociedade, mas os jovens não se deixam intimidar pelas ameaças constantes. É em Jericho que Wednesday visita a terapeuta Valerie Kinbott (Riki Lindhome), que a auxilia a lidar com as emoções mais profundas e complexas. Na mesma cidade, a protagonista conhece o jovem Tyler Galpin (Hunter Doohan), com quem começa a desenvolver uma relação mais íntima, apesar de o pai do rapaz, o xerife Donovan Galpin (Jamie McShane), não aprovar a ligação entre os dois adolescentes.
As visões de Wednesday são fundamentais para interligar os diferentes arcos narrativos da primeira temporada da série. Da descoberta dos seus poderes sobrenaturais aos segredos da família Addams e mortes misteriosas que assombram os populares de Jericho e os alunos de Nevermore, todas as narrativas se sobrepõem, interligando-se na figura central de Wednesday, papel incrivelmente desempenhado por Jenna Ortega.
A dinâmica familiar que existe entre Wednesday, Morticia, Gomez e Pugsley é simplesmente incrível. A peculiaridade desta família permanece única e marcante. Daqui, destacam-se os momentos hilariantes e apaixonantes entre as duas figuras paternais, seja em que circunstância for. A relação entre os dois irmãos também fica marcada pela diferença - enquanto Wednesday não gosta de demonstrar qualquer tipo de emoção ou afeto, o mais novo assume-se como o elemento mais frágil da família, tentando abraçar a irmã sempre que tem oportunidade.
No entanto, o que distingue verdadeiramente o núcleo familiar de todos os outros é a relação entre mãe e filha. A protagonista começa por se declarar como o oposto total de Morticia, declarando afirmações frias e cruéis no início da história. Porém, o poder de visualizar o futuro é uma marca sobrenatural hereditária e, por isso, torna-se no elemento que inevitavelmente une mãe e filha. O desenvolvimento da relação entre ambas torna-se numa peça chave de toda a temporada.
As relações que Wednesday desenvolve ao longo dos episódios revelam-se interessantes e curiosas, tendo em conta a personalidade mórbida e apática da personagem. Os momentos entre Wednesday e Enid tornam-se inesquecíveis, tendo em conta as distintas personalidades das duas raparigas, criando momentos hilariantes e com frases inesquecíveis.
Bianca surge como a rival inicial da protagonista, funcionando como uma forma de demonstrar a força e o poder de Wednesday contra todos aqueles que se colocam no seu caminho. Por sua vez, Tyler demonstra um lado mais emocional da jovem enigmática e que, habitualmente, segue a sua linha racional. Os momentos a sós entre as os dois revelavam o constrangimento provocado pelo coração frio de Wednesday, que se torna mais quente com a ajuda do rapaz "normal".
Nevermore parece ser o local perfeito para o mistério. Competições mortais, passagens enigmáticas e sociedades secretas: todas elas estão presentes na nova realidade de Wednesday. As pistas para solucionar os principais segredos da história são reveladas aos poucos. Em cada episódio são desvendadas novas informações, dando a possibilidade para o público construir as suas próprias teorias. Com um elenco relativamente pequeno e episódios de longa duração, as revelações finais podem tornar-se previsíveis, mas os últimos twists mantêm-se surpreendentes.
Para além do argumento sólido, Wednesday destaca-se fortemente por todo o ambiente que dá vida à narrativa. Da escola, à cidade e à floresta, todos os locais contribuem para a construção deste universo mágico. A construção dos sets acompanha o nível exímio do guarda roupa, que funciona como uma caracterização das diversas personagens. A iluminação também desempenha um papel fundamental no desenvolvimento da história, encontrando-se presente em todos momentos chave da trama. Da mesma forma, a banda sonora combina pop hits com música clássica que acompanha o crescimento da tensão narrativa. Porém, os mesmos elogios não podem ser tecidos aos efeitos especiais, que por vezes se afastavam do tom realista do novo projeto da Netflix.
"As emoções são uma vulnerabilidade. Levam a sentimentos que provocam lágrimas. Lágrimas não é comigo". É assim que Wednesday se caracteriza a si mesma. A verdade é que, apesar de ser uma weirdo, a jovem revela interesses mórbidos e inusitados, tornando-a numa personagem singular e inesquecível. As suas características podem aproximá-la do público mais jovem, ou, por outro lado, afastá-la da nova geração.
Nota: ⭐⭐⭐⭐⭐
4 anos de Aventuras em Galar
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| Todos os direitos reservados ao autor. |
Quatro anos separam 2023 de 2019.
A passagem do tempo será, para sempre, o fenómeno natural que mais me faz
refletir sobre toda a existência humana. Como é possível tanta coisa mudar de
forma tão constante? O mundo nunca abranda? Não, mesmo.
A grande jornada de Aventuras em
Galar permanece como um sonho que, a pouco e pouco, vai ganhando força e forma.
A Temporada 1 foi concluída no final de 2021 e a Temporada 2 teve início em
2022, contando, até ao momento, com três capítulos por descobrir.
Apesar de os últimos tempos
estarem mais enfraquecidos no que toca ao tempo livre para escrever, posso
confirmar que toda a estrutura da Temporada 2 já está delineada e organizada.
Esse é um ponto que eu, pessoalmente, priorizo: a organização narrativa. É
difícil voltar a pegar na história se não souber qual a direção que devo seguir.
Mas se estas escolhas já estiverem previamente decididas, então o trabalho torna-se
mais fácil de executar. Acreditem que a vontade de me voltar a dedicar a esta
história mágica é muita! Mas, infelizmente, o mundo real não pode parar para
nós alimentarmos os nossos sonhos.
Neste momento, encontro-me no último
semestre do meu mestrado. E, se eu pensava que fazer uma tese seria fácil,
então estava muito enganado. Estou a desenvolver uma dissertação sobre a
representação da comunidade LGBTIA+ na ficção portuguesa, um tema que me diz muito.
Especialmente, depois de ter tido a oportunidade de escrever e realizar a minha
primeira curta-metragem, com uma temática muito queer e colorida. Foi
durante a produção deste projeto que percebi que ainda há muito para fazer dentro
desta área e, como tal, estudar a realidade LGBTIA+ na ficção pareceu-me um
tema bastante pertinente e atual. Estou a gostar de descobrir mais sobre este
tema, mas, por vezes, o processo torna-se demasiado demorado e cansativo. Chega
mesmo a ser desmotivador. Mas espero concluir esta grande aventura até ao final
do ano.
Enquanto continuo a desenvolver
as minhas capacidades académicas, procuro também entrar no mercado de trabalho,
que parece estar cada vez mais caótico. 2023 foi o ano em que a minha paixão
pela fotografia se tornou algo mais sério e, pela primeira vez, comecei a ser
remunerado pela minha arte. É um sentimento bastante agradável, devo confessar.
Fazer aquilo que gosto é realmente um privilégio que nunca deve ser tomado como
garantido. Por isso mesmo, é importante valorizarmos todos os passos – até mesmo
os mais pequenos! No final, são as pequenas vitórias que nos constroem enquanto
humanos.
Deste lado, o mundo digital da
Aliança continua a ser o meu lugar seguro, o meu refúgio da realidade, cada vez
que esta se torna mais assustadora. Todos os elementos desta equipa são
fantásticos e é sempre bom entrar no grupo de Whatsapp ou do Discord e
encontrar amigos com quem posso falar (e reclamar) sobre o mundo mágico de
Pokémon. O mesmo se aplica aos restantes conhecidos deste mundo dos blogs. O
sorriso é automático cada vez que encontro uma nova menção ou um comentário por
responder. É importante saber que as pessoas continuam presentes e a dar vida a
este mundo lindo!
Março não é só o mês de
aniversário de Aventuras em Galar. Não. Este também é o mês em que celebro o
meu aniversário. Na verdade, já não celebro muita coisa, pois prefiro
atividades tranquilas entre familiares e amigos mais chegados. Com 23 anos,
continuo apaixonado por Pokémon. Ainda me lembro de jogar, pela primeira vez,
Pokémon Platinum. Na altura, nem percebia muito bem a língua inglesa. Mas
jogava na mesma, com o meu Torterra mortífero.
Às vezes sonho com essa nostalgia.
É estranho explicar, mas parece que não vivi a minha infância com o devido
valor. Agora olho para trás e consigo reconhecer isso. Será que deveria ter
aproveitado mais aquela altura? Será que deveria estar a aproveitar mais o
presente e parar de refletir sobre o que já passou? São várias as questões
existenciais que me assombram. Mas a mente humana e criativa é mesmo assim.
Somos overthinkers constantes.
De uma coisa tenho a certeza: o mundo mágico de Pokémon vai continuar presente na minha vida, para sempre. Assim como a Aliança Aventuras: um sítio único, inesquecível e onde eu irei sempre voltar.


































