Posted by : Angie Dec 1, 2019



Capítulo 8 - Alguma vez pensaste sair numa jornada?

            - Calem-se! Vem aí alguém!

            A voz de Wild fez-se ouvir, atrás de um grande arbusto. O rapaz estava acompanhado por Rory e Peter que obedeceram às ordens do humano, terminando, finalmente, a discussão entre os dois.

            Agora, em silêncio, o trio concentrava a sua atenção no som de vários passos que se aproximavam calmamente. Uma figura humana, acompanhada por um pequeno Pokémon, apareceu no campo visual de Wild, que se deixou surpreender. Aquele era o primeiro humano que Wild via. O menino estremeceu, por breves segundos, e logo a seguir despertou, sentindo um toque no seu braço.

            - Vocês ficam aqui. – sussurrou Peter. – E só intervêm em último caso. Percebido?

            Wild e Rory acenaram afirmativamente com a cabeça. Peter deu um último suspiro e encarou a silhueta do jovem rapaz viajante por entre as folhas do arbusto, pensando numa forma de o atacar sem ele se aperceber primeiro. O coelho já não fazia aquele tipo de coisas há algum tempo, por isso mesmo, parecia um pouco hesitante. Depois de abanar a cabeça, afastando os seus pensamentos, o pequeno saiu disparado na direção do rapaz, agarrando-se à mochila que ele segurava nas costas.

            - AHHHHH!

            O rapaz assustou-se com o ataque, mas o seu Pokémon colocou-se rapidamente em posição de combate, pronto para defender o treinador. Assemelhava-se a um pequeno lagarto laranja, com uma cauda comprida, que segurava uma pequena chama na sua extremidade, que ardia calmamente.


            - Charmander, ataca-o com Scratch!

            O lagarto saltou na direção de Bunnelby, arranhando as suas costas e fazendo-o cair ao chão, soltando o rapaz e a sua mochila. O coelho levantou-se rapidamente, pronto para continuar o combate e atingir o seu objetivo.

            - Queres lutar? – gritou o rapaz. – É luta que te damos! Ember!

            Peter saltou no ar, esquivando-se da chama lançada pelo adversário, e contra-atacou com Quick Attack, atingindo o pequeno lagarto no estômago e fazendo-o cambalear por alguns metros.

            - Continua a tentar! – provocou o treinador. - Smokescreen!

            Uma nuvem de fumo saiu das narinas de Charmander, tapando o campo de visão de Bunnelby, que ficou cercado de fumo negro, desorientado.

            - Scratch e depois Ember!

            Bunnelby nem percebeu de onde veio o ataque. A única coisa que ele sentiu foram as garras afiadas de Charmander perfurarem a sua pele e, logo a seguir, as suas chamas quentes, que queimaram o seu pelo e o lançaram contra o tronco de uma árvore. O pequeno coelho caiu no chão, fraco e com dificuldade para se levantar. Todo o seu corpo doía.

            Wild, que continuava escondido entre os arbustos, cerrou os punhos, pronto para defender o seu melhor amigo.

            - Quem é que tu pensas que és?! – ele gritou, saindo do seu esconderijo e sendo seguido por Rory.

            O outro rapaz virou-se na sua direção e foi então que Wild conseguiu ter uma visão clara e direta do jovem mais velho. A sua pele era morena e os olhos amarelos pareciam brilhar como o ouro. As suas roupas, por outro lado, eram bastante simples. Uma camisola e uns calções brancos cobriam o corpo do rapaz, que calçava umas sapatilhas da mesma cor. O que mais se destacava no seu figurino era o cabelo, que lhe chegava aos ombros e era colorido de azul.

            - Isso pergunto eu! – ripostou. – Aquele Bunnelby é que me atacou primeiro!

            - Isso é porque nós estamos à procura de comida. – explicou o menino.

            - Então, ele é o teu Pokémon?

            - Não, ele é o meu melhor amigo. – respondeu Wild, sem perceber muito bem a pergunta do rapaz.

            - E essa Wynautt também?

            - Não… ela é como uma irmã mais nova para mim. – Wild sorriu, pegando na Pokémon ao colo.

            Rory acenou e sorriu para o rapaz de cabelo azul e, logo de seguida, o seu olhar voltou-se para a figura de Charmander, que a observava com curiosidade. A menina não conseguia deixar de pensar o quão engraçado e forte aquele Pokémon era, visto que conseguira vencer contra Peter.

            - Irmã? – repetiu o rapaz. – Desculpa lá, não estou a perceber nada.

            - Sim! – insistiu. – O Peter é o meu melhor amigo e a Rory é a minha irmã. E nós andamos à procura de comida. Hoje, a minha família vai dar um almoço gigante lá em casa!

            - Deixa-me ver se eu percebo… tu vives com Pokémon, a quem chamas de família? Aqui, na Wild Area?

            - Exatamente! Qual é a dificuldade de perceber isso? – o menino perguntou, ingenuamente.

            - Só estou curioso… nunca ouvi uma história assim antes. – sorriu. – E, na verdade, eu tenho bastante comida na minha mochila. Acho que posso partilhar com a tua família.

            - Acho que, sendo assim, podes vir connosco! – o menino sorriu. – Podes-me chamar Wild. – disse, estendo a mão.

            - Eu sou o Leon. Gosto em conhecer-te.


            - Leon, esta é a minha família. Susan, a minha mãe, George, o meu pai, Tommy, o meu irmão mais velho, e a Rory, que já conheces. O Peter também vive aqui connosco. E a Carol e o Nate visitam-nos sempre que lhes apetece. – Wild explicava, enquanto apontava para cada Pokémon. – Família e amigos, este é o Leon, um treinador Pokémon que nós encontrámos.

            - Na verdade, fui eu que o encontrei. – cortou Peter.

            - É verdade. – o menino deixou-se rir. – O Charmander do Leon combateu contra o Peter, mas depois o Leon ofereceu-nos uma Potion pelos danos causados. – explicou.

            - Fico feliz em conhecer-vos. – disse o jovem treinador, que observava cada um dos Pokémon à sua frente com muita atenção. – Eu nunca vi estes Pokémon antes, Wild! Como é que os encontraste?

            - Foram eles que me encontraram.

            A família e os amigos do menino encontravam-se todos presentes no jardim da casa. Enquanto a maioria parecia feliz por Wild ter conhecido o seu primeiro amigo humano, que trazia comida consigo, outros mostravam uma certa preocupação e hesitação com a presença do treinador.

            - Wild, querido, ele é boa gente? – Susan estava visivelmente preocupada.

            - Sim, mãe! Ele só nos quer ajudar!

            - Não… ele não devia estar aqui. – murmurava Tommy.

            - A mim parece-me um rapaz simpático. – George encolheu os ombros.

            - Eu também não confio nele... – dizia Nate, enquanto fitava o rosto do rapaz.

            - Parece inocente. É só um treinador. – Carol parecia a mais calma.

            - Pessoal, nós podemos confiar no Leon! Ele é fixe! – insistia Wild.

            - E já viram o Charmander dele? – interveio Rory. – É tão fofo!

            Leon, que permanecia no local, revelava-se confuso. Na sua perspetiva, o pequeno Wild estava a falar sozinho, tudo o que ele ouvia eram os grunhidos indecifráveis de todos os Pokémon à sua volta. Ao contrário de Wild, ele não entendia a sua linguagem.

            - Como consegues? – perguntou espantado.

            - Estás a falar do quê? – agora era Wild quem parecia confuso.

            - Falar com eles. Parece que os compreendes!

            - O quê? Tu e o teu Charmander não falam um com o outro?

            - Não… - Leon respondeu de forma simples. – E, para ser sincero, não conheço ninguém que tenha essa capacidade. Apenas tu.

            Fez-se silêncio. Wild deixou que o seu queixo caísse, ao mesmo tempo que a sua mente era invadida por pensamentos aleatórios vindo de todos os lados. Ele sabia que era um menino especial, mas não imaginava que fosse assim tanto. Se ele era realmente o único humano que tinha a capacidade de comunicar com Pokémon, então isso fazia dele o menino mais especial do mundo.

            - O que é que isto quer dizer? – o rapaz voltou-se para a sua família e focou na figura de Susan.

            - Nós não sabemos… - admitiu a mulher.

            - Eu procurei explicações nos meus livros. – interveio Tommy. – Mas não encontrei absolutamente nada. A verdade é que tu cresceste connosco, talvez isso tenha desenvolvido a capacidade de tu poderes comunicar quer com humanos, quer com Pokémon.

            - Mas nós não precisamos de explicações nenhumas… - Buttrefree sobrevou a figura de Wild e aterrou no solo à sua frente. – Nós aceitamos-te de qualquer maneira.

            Wild esboçou um pequeno sorriso ao ouvir as palavras daquela criatura que ele considerava sua mãe. No entanto, apesar das palavras serem sinceras e sentidas, o menino não conseguia deixar de se sentir estranho por saber daquele facto sobre si mesmo.

            - Eu acho que és realmente sortudo. – falou Leon, interrompendo o silencio. – Quem me dera a mim poder falar com o Charmander. E ter uma família de Pokémon tão grande como a tua! – exclamou. – Nós começamos a nossa jornada há pouco tempo, mas espero que em breve possamos capturar novos companheiros.

            - O que é realmente uma jornada? – perguntou Wild curioso.

            - É uma aventura! Jovens à volta de todo o mundo saem em jornadas Pokémon pelas várias regiões que existem com o seu objetivo pessoal.

            - Saem de casa sozinhos? Sem os seus pais?

            - Sim! Esse é o grande desafio de todos os aventureiros! – riu Leon.

            - E qual é o teu objetivo? Quer dizer, porque saíste numa jornada?

            - Eu sempre adorei combates Pokémon! E, nos torneios da minha escola, eu era sempre dos melhores classificados. Então a minha vontade de participar na Liga Pokémon de Galar nasceu aí, desde muito cedo. – explicou. – Recentemente, a importância e a proporção da Liga Pokémon de Galar tem vindo a aumentar cada vez mais. Treinadores de todo o mundo aventuram-se pelas ruas e cidades da região, o que dificulta a chegada ao topo. Mas só aqueles que são recomendados por uma figura reconhecida ou importante é que podem realmente desafiar os líderes de ginásio de Galar. Eu, por exemplo, recebi uma carta de recomendação do Rose.

            - Quem?

            - Ele é o presidente da Liga Pokémon de Galar! – exclamou o treinador. – Não o conheces? É um empresário super famoso!

            - Não… mas parece ser fixe.

            - E é, acredita. Eu serei eternamente agradecido por ele me dar a oportunidade da minha vida!

            - Uau…

            Wild tentava absorver toda aquela informação ao mesmo tempo que continuava a ouvir o rapaz a explicar outros temas sobre a Liga Pokémon e a aventura de sair numa jornada por ruas e cidades completamente desconhecidas. O menino mostrava-se interessado em ouvir mais histórias do seu novo amigo, que ele desejava, secretamente, que se mantivesse ali com ele por mais algum tempo.

            - De qualquer das maneiras… quantos anos tens, Wild?

            - Quase dez… - respondeu de forma vaga.

            - Com a tua idade foi quando eu entrei para a Escola Pokémon. Mas há outros treinadores que iniciaram a sua jornada na mesma altura. Eu, por exemplo, preferi esperar até acabar a escola e fazer quinze anos. – explicava. – Alguma vez pensaste sair numa jornada?

            A família do menino estremeceu ao ouvir aquela pergunta, receando com a resposta que pudesse vir a ser dada.

            - Nunca. – afirmou Wild. – Na verdade, eu nunca participei realmente numa batalha. – admitiu envergonhado.

            - A sério? – Leon parecia surpreendido. – E se resolvêssemos isso agora mesmo?

            - Como assim?

            - Vamos combater um contra o outro!

            - Eu pensava que íamos almoçar… - murmurava Peter esfomeado.

            - Eu quero!

            Rory, que até então permanecia em silencio a ouvir a conversa entre os dois rapazes aproximou-se do seu irmão, tocando-lhe na mão.

            - Tens a certeza? – perguntou Wild, observando a Pokémon.

            - Sim… eu quero lutar com o Charmander! – sorriu.

            Wild lançou um olhar a Susan que o observava atentamente. Apesar de não ser super a favor daquela decisão, a borboleta assentiu com a cabeça, dando permissão para que o combate pudesse, de facto, avançar.

            - Vamos a isto, então!

            Os dois rapazes colocaram-se em pontas opostas do jardim da casa, acompanhados pelos seus respetivos Pokémon. Rory permanecia sorridente, feliz por disputar um combate com um Pokémon que despertava algum interesse e curiosidade nela. Do outro lado, Charmander adotava uma postura mais séria e rígida, revelando uma certa prática. Junto de alguns bancos de pedra, a família e os amigos de Wild aguardavam ansiosamente que o combate tivesse início. Aquela seria a primeira batalha do menino com outro treinador. Era algo que nenhum deles queria perder.

            - Podem começar vocês! – exclamou Leon.

            - Muito bem… Rory… ataca!

            A pequena Wynaut, mantendo o seu rosto sorridente, começou a saltitar à volta do campo de batalha improvisado, deixando todos os espectadores confusos e surpresos. Aquele ataque era conhecido como Splash e não fazia absolutamente nada.

            - Rory?

            - Oh não… esse é o único ataque que ela sabe? – Leon questionava, do outro lado do campo. – Parece que não temos um adversário à altura, companheiro! Ataca com Ember!

            Concentrada nos seus saltos e piruetas, Wynaut nem se apercebera do ataque de Charmander que se aproximava de si rapidamente, mas, com muita sorte, a pequena conseguiu esquivar-se sem sequer se dar conta.

            - Rory! Faz alguma coisa! – gritava Wild, levantando os braços.

            - Eu não sei fazer muita coisa… - murmurou a Pokémon, parando de saltar finalmente. – Espera aí… - dizia pensativa. – Acho que já sei!

            A pequena criatura de pelo azul correu na direção do lagarto de fogo, abraçando o seu corpo com toda a força. Wild arregalou os olhos, confuso com o que se estava a passar. À volta do corpo de Wynaut, pequenos corações começaram a surgir, atingindo o corpo de Charmander de uma forma subtil. Charm reduzia o poder de ataque do Pokémon de Leon.

            - Ridículo! – reclamou o treinador. – Aproveita que ela está próxima e usa Fury Swipes!

            Sem perder mais tempo, Charmander desferiu as suas garras contra o corpo de Wynaut múltiplas vezes, fazendo a Pokémon gritar de dor. Todos os espectadores estremeceram ao verem a pequena Rory ser atacada daquela maneira. Apesar de ser um ataque simples, a força e o poder de Charmander não se comparava com a de Wynaut.

            - Chega!

            A voz de Leon fez-se ouvir. Charmander parou imediatamente de atacar a Pokémon, que caiu no chão atordoada. Wild, incrédulo e preocupado, correu na sua direção. Pegou no corpo da pequena Pokémon e juntou-a ao seu peito.

            - Desculpa… - murmurou.

            - A culpa não é tua. Fui eu que escolhi lutar. – disse Rory calmamente, deixando-se rir. – Eu sabia que o Charmander era forte. Pensava que podia aprender alguma coisa com ele.

            - Rory… tu és forte à tua maneira. – explicou o menino.

            - Não, não sou. – respondeu a menina. – Ainda tenho muita coisa para aprender.

            - Temos. – sorriu Wild.

            Naquele momento, Leon aproximava-se dos dois, acompanhado de Charmander.

            - Peço desculpa… eu não sabia que a Rory era tão frágil.

            - A culpa não é tua. – admitiu Wild. – Nós encontrámos a Rory há algum tempo atrás, quando ela tinha acabado de nascer do seu ovo. Até então, acho que ela nunca participou realmente num combate a sério. Daí não estar tão bem preparada para te enfrentar a ti e ao teu Charmander.

            - Sendo assim, acho que vocês os dois ainda têm um longo caminho pela frente. Treinar um Pokémon não é fácil, mas, se os dois tiverem uma boa conexão, também não é difícil. – dizia, lançando um olhar ao seu companheiro. – Como nós. Eu e o Charmander aprendemos coisas novas todos os dias!

            - Obrigado pelo conselho, Leon! – sorriu Wild.

            Pela primeira vez na sua vida, Wild apercebeu-se que, se ele queria realmente sair numa jornada, como Leon fizera, ele tinha de se esforçar para treinar os seus Pokémon e isso implicava vê-los sofrer, para que ambos pudessem crescer. E, ao contrário do que acontecera até agora, seria ele o responsável pelos seus Pokémon. O rapaz ainda não sabia se estava pronto para dar tal passo, mas, o que o preocupava mais, era ele ter de abandonar a sua família, que sempre cuidara dele.

            - Bem… acho que agora sim, podemos ir almoçar! – disse Leon.

            - Finalmente! – gritou Peter entusiasmado.

  

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  1. Mesmo com o Charmander aparecendo logo de cara eu nem me toquei que era o Leon que estava na mira do Wild kkkkkkkk Então era isso que você queria dizer com "participação especial" no capítulo passado. Bem pensado!

    O Leon vai lá e planta a sementinha do mal na cabeça de Wild. Será que agora ele vai realmente sair em uma jornada. A Susan já deve estar ficando louca só de pensar na possibilidade. Mas o garoto já tem quase 10 anos. Está na hora dele começar a pensar nisso.

    Quero ver o que esses dois últimos capítulos estão reservando. Chegou a hora de tomar as decisões finais, e o desfecho da aventura de Wild vai chegando ao fim.

    Até a próxima! õ/

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    1. Shadow!

      Fico feliz por conseguir surpreende-lo! Sim, o Leon era um de algumas participações especiais que acontecem em Wild. Tem mais ainda!

      O agora Campeão de Galar foi o responsável por introduzir o conceito de jornada a Wild, bem verdade. E como será que o rapaz e os restantes elementos da sua família vão reagir a essa ideia? Estarão de acordo? Ou contra?

      Últimos dois capítulos, caramba! O Shadow tem vindo a acompanhar esta história desde o início e agora está quase a chegar ao fim. Estou muito ansioso para ver as suas reações aos próximos eventos e também quero ouvir as suas opiniões e teorias!

      Boas leituras!

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