Wild | Capítulo 8



Capítulo 8 - Alguma vez pensaste sair numa jornada?

            - Calem-se! Vem aí alguém!

            A voz de Wild fez-se ouvir, atrás de um grande arbusto. O rapaz estava acompanhado por Rory e Peter que obedeceram às ordens do humano, terminando, finalmente, a discussão entre os dois.

            Agora, em silêncio, o trio concentrava a sua atenção no som de vários passos que se aproximavam calmamente. Uma figura humana, acompanhada por um pequeno Pokémon, apareceu no campo visual de Wild, que se deixou surpreender. Aquele era o primeiro humano que Wild via. O menino estremeceu, por breves segundos, e logo a seguir despertou, sentindo um toque no seu braço.

            - Vocês ficam aqui. – sussurrou Peter. – E só intervêm em último caso. Percebido?

            Wild e Rory acenaram afirmativamente com a cabeça. Peter deu um último suspiro e encarou a silhueta do jovem rapaz viajante por entre as folhas do arbusto, pensando numa forma de o atacar sem ele se aperceber primeiro. O coelho já não fazia aquele tipo de coisas há algum tempo, por isso mesmo, parecia um pouco hesitante. Depois de abanar a cabeça, afastando os seus pensamentos, o pequeno saiu disparado na direção do rapaz, agarrando-se à mochila que ele segurava nas costas.

            - AHHHHH!

            O rapaz assustou-se com o ataque, mas o seu Pokémon colocou-se rapidamente em posição de combate, pronto para defender o treinador. Assemelhava-se a um pequeno lagarto laranja, com uma cauda comprida, que segurava uma pequena chama na sua extremidade, que ardia calmamente.


            - Charmander, ataca-o com Scratch!

            O lagarto saltou na direção de Bunnelby, arranhando as suas costas e fazendo-o cair ao chão, soltando o rapaz e a sua mochila. O coelho levantou-se rapidamente, pronto para continuar o combate e atingir o seu objetivo.

            - Queres lutar? – gritou o rapaz. – É luta que te damos! Ember!

            Peter saltou no ar, esquivando-se da chama lançada pelo adversário, e contra-atacou com Quick Attack, atingindo o pequeno lagarto no estômago e fazendo-o cambalear por alguns metros.

            - Continua a tentar! – provocou o treinador. - Smokescreen!

            Uma nuvem de fumo saiu das narinas de Charmander, tapando o campo de visão de Bunnelby, que ficou cercado de fumo negro, desorientado.

            - Scratch e depois Ember!

            Bunnelby nem percebeu de onde veio o ataque. A única coisa que ele sentiu foram as garras afiadas de Charmander perfurarem a sua pele e, logo a seguir, as suas chamas quentes, que queimaram o seu pelo e o lançaram contra o tronco de uma árvore. O pequeno coelho caiu no chão, fraco e com dificuldade para se levantar. Todo o seu corpo doía.

            Wild, que continuava escondido entre os arbustos, cerrou os punhos, pronto para defender o seu melhor amigo.

            - Quem é que tu pensas que és?! – ele gritou, saindo do seu esconderijo e sendo seguido por Rory.

            O outro rapaz virou-se na sua direção e foi então que Wild conseguiu ter uma visão clara e direta do jovem mais velho. A sua pele era morena e os olhos amarelos pareciam brilhar como o ouro. As suas roupas, por outro lado, eram bastante simples. Uma camisola e uns calções brancos cobriam o corpo do rapaz, que calçava umas sapatilhas da mesma cor. O que mais se destacava no seu figurino era o cabelo, que lhe chegava aos ombros e era colorido de azul.

            - Isso pergunto eu! – ripostou. – Aquele Bunnelby é que me atacou primeiro!

            - Isso é porque nós estamos à procura de comida. – explicou o menino.

            - Então, ele é o teu Pokémon?

            - Não, ele é o meu melhor amigo. – respondeu Wild, sem perceber muito bem a pergunta do rapaz.

            - E essa Wynautt também?

            - Não… ela é como uma irmã mais nova para mim. – Wild sorriu, pegando na Pokémon ao colo.

            Rory acenou e sorriu para o rapaz de cabelo azul e, logo de seguida, o seu olhar voltou-se para a figura de Charmander, que a observava com curiosidade. A menina não conseguia deixar de pensar o quão engraçado e forte aquele Pokémon era, visto que conseguira vencer contra Peter.

            - Irmã? – repetiu o rapaz. – Desculpa lá, não estou a perceber nada.

            - Sim! – insistiu. – O Peter é o meu melhor amigo e a Rory é a minha irmã. E nós andamos à procura de comida. Hoje, a minha família vai dar um almoço gigante lá em casa!

            - Deixa-me ver se eu percebo… tu vives com Pokémon, a quem chamas de família? Aqui, na Wild Area?

            - Exatamente! Qual é a dificuldade de perceber isso? – o menino perguntou, ingenuamente.

            - Só estou curioso… nunca ouvi uma história assim antes. – sorriu. – E, na verdade, eu tenho bastante comida na minha mochila. Acho que posso partilhar com a tua família.

            - Acho que, sendo assim, podes vir connosco! – o menino sorriu. – Podes-me chamar Wild. – disse, estendo a mão.

            - Eu sou o Leon. Gosto em conhecer-te.


            - Leon, esta é a minha família. Susan, a minha mãe, George, o meu pai, Tommy, o meu irmão mais velho, e a Rory, que já conheces. O Peter também vive aqui connosco. E a Carol e o Nate visitam-nos sempre que lhes apetece. – Wild explicava, enquanto apontava para cada Pokémon. – Família e amigos, este é o Leon, um treinador Pokémon que nós encontrámos.

            - Na verdade, fui eu que o encontrei. – cortou Peter.

            - É verdade. – o menino deixou-se rir. – O Charmander do Leon combateu contra o Peter, mas depois o Leon ofereceu-nos uma Potion pelos danos causados. – explicou.

            - Fico feliz em conhecer-vos. – disse o jovem treinador, que observava cada um dos Pokémon à sua frente com muita atenção. – Eu nunca vi estes Pokémon antes, Wild! Como é que os encontraste?

            - Foram eles que me encontraram.

            A família e os amigos do menino encontravam-se todos presentes no jardim da casa. Enquanto a maioria parecia feliz por Wild ter conhecido o seu primeiro amigo humano, que trazia comida consigo, outros mostravam uma certa preocupação e hesitação com a presença do treinador.

            - Wild, querido, ele é boa gente? – Susan estava visivelmente preocupada.

            - Sim, mãe! Ele só nos quer ajudar!

            - Não… ele não devia estar aqui. – murmurava Tommy.

            - A mim parece-me um rapaz simpático. – George encolheu os ombros.

            - Eu também não confio nele... – dizia Nate, enquanto fitava o rosto do rapaz.

            - Parece inocente. É só um treinador. – Carol parecia a mais calma.

            - Pessoal, nós podemos confiar no Leon! Ele é fixe! – insistia Wild.

            - E já viram o Charmander dele? – interveio Rory. – É tão fofo!

            Leon, que permanecia no local, revelava-se confuso. Na sua perspetiva, o pequeno Wild estava a falar sozinho, tudo o que ele ouvia eram os grunhidos indecifráveis de todos os Pokémon à sua volta. Ao contrário de Wild, ele não entendia a sua linguagem.

            - Como consegues? – perguntou espantado.

            - Estás a falar do quê? – agora era Wild quem parecia confuso.

            - Falar com eles. Parece que os compreendes!

            - O quê? Tu e o teu Charmander não falam um com o outro?

            - Não… - Leon respondeu de forma simples. – E, para ser sincero, não conheço ninguém que tenha essa capacidade. Apenas tu.

            Fez-se silêncio. Wild deixou que o seu queixo caísse, ao mesmo tempo que a sua mente era invadida por pensamentos aleatórios vindo de todos os lados. Ele sabia que era um menino especial, mas não imaginava que fosse assim tanto. Se ele era realmente o único humano que tinha a capacidade de comunicar com Pokémon, então isso fazia dele o menino mais especial do mundo.

            - O que é que isto quer dizer? – o rapaz voltou-se para a sua família e focou na figura de Susan.

            - Nós não sabemos… - admitiu a mulher.

            - Eu procurei explicações nos meus livros. – interveio Tommy. – Mas não encontrei absolutamente nada. A verdade é que tu cresceste connosco, talvez isso tenha desenvolvido a capacidade de tu poderes comunicar quer com humanos, quer com Pokémon.

            - Mas nós não precisamos de explicações nenhumas… - Buttrefree sobrevou a figura de Wild e aterrou no solo à sua frente. – Nós aceitamos-te de qualquer maneira.

            Wild esboçou um pequeno sorriso ao ouvir as palavras daquela criatura que ele considerava sua mãe. No entanto, apesar das palavras serem sinceras e sentidas, o menino não conseguia deixar de se sentir estranho por saber daquele facto sobre si mesmo.

            - Eu acho que és realmente sortudo. – falou Leon, interrompendo o silencio. – Quem me dera a mim poder falar com o Charmander. E ter uma família de Pokémon tão grande como a tua! – exclamou. – Nós começamos a nossa jornada há pouco tempo, mas espero que em breve possamos capturar novos companheiros.

            - O que é realmente uma jornada? – perguntou Wild curioso.

            - É uma aventura! Jovens à volta de todo o mundo saem em jornadas Pokémon pelas várias regiões que existem com o seu objetivo pessoal.

            - Saem de casa sozinhos? Sem os seus pais?

            - Sim! Esse é o grande desafio de todos os aventureiros! – riu Leon.

            - E qual é o teu objetivo? Quer dizer, porque saíste numa jornada?

            - Eu sempre adorei combates Pokémon! E, nos torneios da minha escola, eu era sempre dos melhores classificados. Então a minha vontade de participar na Liga Pokémon de Galar nasceu aí, desde muito cedo. – explicou. – Recentemente, a importância e a proporção da Liga Pokémon de Galar tem vindo a aumentar cada vez mais. Treinadores de todo o mundo aventuram-se pelas ruas e cidades da região, o que dificulta a chegada ao topo. Mas só aqueles que são recomendados por uma figura reconhecida ou importante é que podem realmente desafiar os líderes de ginásio de Galar. Eu, por exemplo, recebi uma carta de recomendação do Rose.

            - Quem?

            - Ele é o presidente da Liga Pokémon de Galar! – exclamou o treinador. – Não o conheces? É um empresário super famoso!

            - Não… mas parece ser fixe.

            - E é, acredita. Eu serei eternamente agradecido por ele me dar a oportunidade da minha vida!

            - Uau…

            Wild tentava absorver toda aquela informação ao mesmo tempo que continuava a ouvir o rapaz a explicar outros temas sobre a Liga Pokémon e a aventura de sair numa jornada por ruas e cidades completamente desconhecidas. O menino mostrava-se interessado em ouvir mais histórias do seu novo amigo, que ele desejava, secretamente, que se mantivesse ali com ele por mais algum tempo.

            - De qualquer das maneiras… quantos anos tens, Wild?

            - Quase dez… - respondeu de forma vaga.

            - Com a tua idade foi quando eu entrei para a Escola Pokémon. Mas há outros treinadores que iniciaram a sua jornada na mesma altura. Eu, por exemplo, preferi esperar até acabar a escola e fazer quinze anos. – explicava. – Alguma vez pensaste sair numa jornada?

            A família do menino estremeceu ao ouvir aquela pergunta, receando com a resposta que pudesse vir a ser dada.

            - Nunca. – afirmou Wild. – Na verdade, eu nunca participei realmente numa batalha. – admitiu envergonhado.

            - A sério? – Leon parecia surpreendido. – E se resolvêssemos isso agora mesmo?

            - Como assim?

            - Vamos combater um contra o outro!

            - Eu pensava que íamos almoçar… - murmurava Peter esfomeado.

            - Eu quero!

            Rory, que até então permanecia em silencio a ouvir a conversa entre os dois rapazes aproximou-se do seu irmão, tocando-lhe na mão.

            - Tens a certeza? – perguntou Wild, observando a Pokémon.

            - Sim… eu quero lutar com o Charmander! – sorriu.

            Wild lançou um olhar a Susan que o observava atentamente. Apesar de não ser super a favor daquela decisão, a borboleta assentiu com a cabeça, dando permissão para que o combate pudesse, de facto, avançar.

            - Vamos a isto, então!

            Os dois rapazes colocaram-se em pontas opostas do jardim da casa, acompanhados pelos seus respetivos Pokémon. Rory permanecia sorridente, feliz por disputar um combate com um Pokémon que despertava algum interesse e curiosidade nela. Do outro lado, Charmander adotava uma postura mais séria e rígida, revelando uma certa prática. Junto de alguns bancos de pedra, a família e os amigos de Wild aguardavam ansiosamente que o combate tivesse início. Aquela seria a primeira batalha do menino com outro treinador. Era algo que nenhum deles queria perder.

            - Podem começar vocês! – exclamou Leon.

            - Muito bem… Rory… ataca!

            A pequena Wynaut, mantendo o seu rosto sorridente, começou a saltitar à volta do campo de batalha improvisado, deixando todos os espectadores confusos e surpresos. Aquele ataque era conhecido como Splash e não fazia absolutamente nada.

            - Rory?

            - Oh não… esse é o único ataque que ela sabe? – Leon questionava, do outro lado do campo. – Parece que não temos um adversário à altura, companheiro! Ataca com Ember!

            Concentrada nos seus saltos e piruetas, Wynaut nem se apercebera do ataque de Charmander que se aproximava de si rapidamente, mas, com muita sorte, a pequena conseguiu esquivar-se sem sequer se dar conta.

            - Rory! Faz alguma coisa! – gritava Wild, levantando os braços.

            - Eu não sei fazer muita coisa… - murmurou a Pokémon, parando de saltar finalmente. – Espera aí… - dizia pensativa. – Acho que já sei!

            A pequena criatura de pelo azul correu na direção do lagarto de fogo, abraçando o seu corpo com toda a força. Wild arregalou os olhos, confuso com o que se estava a passar. À volta do corpo de Wynaut, pequenos corações começaram a surgir, atingindo o corpo de Charmander de uma forma subtil. Charm reduzia o poder de ataque do Pokémon de Leon.

            - Ridículo! – reclamou o treinador. – Aproveita que ela está próxima e usa Fury Swipes!

            Sem perder mais tempo, Charmander desferiu as suas garras contra o corpo de Wynaut múltiplas vezes, fazendo a Pokémon gritar de dor. Todos os espectadores estremeceram ao verem a pequena Rory ser atacada daquela maneira. Apesar de ser um ataque simples, a força e o poder de Charmander não se comparava com a de Wynaut.

            - Chega!

            A voz de Leon fez-se ouvir. Charmander parou imediatamente de atacar a Pokémon, que caiu no chão atordoada. Wild, incrédulo e preocupado, correu na sua direção. Pegou no corpo da pequena Pokémon e juntou-a ao seu peito.

            - Desculpa… - murmurou.

            - A culpa não é tua. Fui eu que escolhi lutar. – disse Rory calmamente, deixando-se rir. – Eu sabia que o Charmander era forte. Pensava que podia aprender alguma coisa com ele.

            - Rory… tu és forte à tua maneira. – explicou o menino.

            - Não, não sou. – respondeu a menina. – Ainda tenho muita coisa para aprender.

            - Temos. – sorriu Wild.

            Naquele momento, Leon aproximava-se dos dois, acompanhado de Charmander.

            - Peço desculpa… eu não sabia que a Rory era tão frágil.

            - A culpa não é tua. – admitiu Wild. – Nós encontrámos a Rory há algum tempo atrás, quando ela tinha acabado de nascer do seu ovo. Até então, acho que ela nunca participou realmente num combate a sério. Daí não estar tão bem preparada para te enfrentar a ti e ao teu Charmander.

            - Sendo assim, acho que vocês os dois ainda têm um longo caminho pela frente. Treinar um Pokémon não é fácil, mas, se os dois tiverem uma boa conexão, também não é difícil. – dizia, lançando um olhar ao seu companheiro. – Como nós. Eu e o Charmander aprendemos coisas novas todos os dias!

            - Obrigado pelo conselho, Leon! – sorriu Wild.

            Pela primeira vez na sua vida, Wild apercebeu-se que, se ele queria realmente sair numa jornada, como Leon fizera, ele tinha de se esforçar para treinar os seus Pokémon e isso implicava vê-los sofrer, para que ambos pudessem crescer. E, ao contrário do que acontecera até agora, seria ele o responsável pelos seus Pokémon. O rapaz ainda não sabia se estava pronto para dar tal passo, mas, o que o preocupava mais, era ele ter de abandonar a sua família, que sempre cuidara dele.

            - Bem… acho que agora sim, podemos ir almoçar! – disse Leon.

            - Finalmente! – gritou Peter entusiasmado.

  

Wild | Capítulo 7 - Notas do Autor



            Olá aventureiros!

            Bem-vindos a “Wild”, uma magnífica história onde um pequeno ser humano é acolhido por um grupo de Pokémon selvagens que desafiam as barreiras da amizade e do amor.

            Neste segmento mais informal, falo sobre os temas de cada capítulo, revelo várias curiosidades e levanto algumas suposições para o capítulo seguinte.


Pedido de desculpas

            Este é o principal ponto deste capítulo. Vários pedidos de desculpas foram feitos e, a partir de agora, novas mudanças começam a surgir na história.

            Wild e Peter foram os primeiros a lamentar-se e a arrepender-se do sucedido no capítulo anterior. Depois de um castigo que durou um mês e que os manteve em casa, os dois rapazes chegam à conclusão que, realmente, o que eles fizeram não foi correto. Não só mentiram à sua família como a colocaram em risco. Tal como aconteceu com os Pokémon que habitavam a torre de vigia abandonada. No mesmo seguimento, espero que tenham gostado e achado interessante a comparação feita por Susan. De facto, só me apercebi das semelhanças entre a “visita” à torre com o “ataque” de Nate, enquanto produzia o diálogo! E deu muito mais significado a toda a história envolvente.

            Por falar em Nate, ele foi outro grande protagonista deste capítulo. Após o confronto com Peter (que mostrou finalmente o seu poder), o Pokémon elétrico revelou a verdadeira razão do seu ataque a Wild e a toda a sua família. No fundo, ele também tem um bom coração, só uma forma muito diferente de o mostrar. Mas, daqui em diante, veremos um Nate diferente e com vontade de se redimir.

Outros pontos

            Para além da história principal, queria sublinhar, igualmente, outros tópicos que acho relevantes.

            Um deles é a forma como vemos uma Susan diferente, autoritária e um pouco insegura, sem saber o que fazer ou o que pensar relativamente ao comportamento de Wild e Peter. Mais uma vez, a forma como o rapaz se comporta, tem efeitos nos outros elementos da história.

            O outro ponto é relativamente a Carol e à sua relação com o jovem protagonista. Espero que tenham gostado das descrições submarinas e das suas interações. Infelizmente, não houve muito mais espaço neste capítulo, nem nos próximos, para desenvolver esta relação entre os dois. Mas estou a preparar algo muito fofo para o final!

Capítulo 8

            Com a desculpa de arranjarem mais comida para um grande almoço preparado pela sua família, Wild, com a ajuda de Peter e Rory, atacam um treinador de passagem pela Wild Area. Mas… o que acontecerá quando Wild conhecer outro humano? E quem é ele?

            Obrigado por continuarem a acompanhar as aventuras de Wild! Até ao próximo capítulo!

Wild | Capítulo 7



Capítulo 7 - Desculpem

            Susan sempre mostrara ser uma mulher e uma mãe amável, mas após a saída clandestina de Wild e Peter para a torre de vigia abandonada, a sua postura mudara completamente. Agora a mulher agia de forma controladora e autoritária. Os rapazes ficaram de castigo durante várias semanas. Durante esse período, não puderam sair do recinto da casa. Só podiam brincar até à hora de jantar e, logo depois, era momento de irem dormir. A sequencia repetiu-se por longas semanas, nas quais Wild e Peter se lamentavam várias vezes pelo ocorrido.

            Tommy, pelo contrário, ganhara a confiança dos seus pais por ter salvo os dois jovens rebeldes. Agora no seu novo corpo, o gigante Pokémon acostumava-se a novos hábitos e comportamentos. Já Susan, a figura maternal do grupo, questionava-se várias vezes por que razão Wild e Peter tinham cometido aquele ato de rebeldia. Ela não percebia se estava a fazer o papel de mãe de forma errada, ou se eram eles que agiam como se não tivessem recebido nenhuma educação da sua parte. Por outro lado, George argumentava que atos daquele tipo eram normais e naturais de acontecer a todas as crianças, quer fossem humanas ou Pokémon. Por último, Rory, a filha mais nova do casal, mantinha-se calma e sossegada, admirando o novo corpo e poder do seu irmão mais velho.

            No último dia do castigo, os dois rapazes sentaram-se com Susan e George no jardim da casa. O casal continuava apreensivo quanto ao comportamento dos jovens e queria ter a certeza que o castigo tinha tido o efeito pretendido.

            - Estamos finalmente livres? – foram as primeiras palavras de Peter, ao sentar-se num dos bancos de madeira do jardim.

            - Se queres ser livre, e não ter de obedecer a regras, podes sair por aquele portão ali ao fundo e nunca mais voltar. – respondeu Susan prontamente.

            - Nós somos uma família. – murmurou George. – Uma família muito pouco convencional, eu sei, mas ainda funcionamos como uma.

            - Eu estou muitíssimo arrependido pelo que fiz. – afirmou Wild, com as bochechas coradas. – Como já disse, a culpa foi inteiramente minha. Fui eu que tive a ideia de visitarmos a torre. Eu devo ser responsável, não o Peter.

            - Ambos o fizeram. – cortou a borboleta. – O Peter não foi obrigado a nada. Ele foi de livre vontade e, como tal, deve ser responsabilizado da mesma forma.

            - Eu peço desculpa também. – murmurou o coelho, com uma voz arrastada. – Mas vocês sabem o sacrifício que eu faço para estar aqui trancado durante estas semanas todas?! Quanto tempo se passou?! Um mês?!

            - E eu não visito a Carol desde que a conheci! Eu tenho pensado nela todos os dias! Ela deve pensar que eu me esqueci dela, com certeza…

            - Exatamente. – acenou George. – Mas é isso mesmo que vocês devem compreender. Todos nós fazemos sacrifícios, diariamente, para que, como família, possamos funcionar de forma correta e saudável para o benefício de todos.

            - Vocês não percebem que, ao invadir aquela torre, estariam a meter toda a gente em perigo? Vocês, nós, e os Pokémon que lá habitavam. – Susan explicava seriamente. – É quase como que se vocês se tornassem no Nate.

            - Não, nunca! – exclamou Bunnelby, exaltado.

            - Tens a certeza? Vocês invadiram a torre, como se fosse a vossa própria casa. E depois, quando os Pokémon que já lá estavam a viver, se protegeram e vos atacaram, vocês atacaram-nos de volta. Foi exatamente isso que o Nate fez connosco, lembram-se?

            Os dois amigos calaram-se e refletiram por alguns momentos. De facto, eles nunca pararam para pensar daquela forma. E, na verdade, o próprio Golurk os chamara de invasores. Tal como Duskull, que tentara defender o guardião da torre antes de eles o atacarem. Talvez eles tivessem agido da mesma forma que Nate. E isso assustava-os profundamente.

            - Nós não fizemos por mal… - murmurou Wild. – Tudo o que nós queríamos era visitar a torre, sem levantar qualquer problema.

            - Mas quando o problema surgiu, vocês tentaram resolve-lo. – cortou George. – Eu acho que isso também diz muito de vocês. Talvez sejam mais corajosos e fortes do que qualquer um de nós imaginava.

            - A verdade é que só nos safámos porque o Tommy nos seguiu. – admitiu Peter. – Os meus ataques não funcionavam naqueles fantasmas horripilantes!

            Susan deixou-se rir com as palavras do Pokémon e todos voltaram a atenção para o seu corpo. A feição séria e autoritária da Pokémon parecia desvanecer aos poucos.

            - Desculpem. – disse. – Eu sei que prolonguei este castigo por demasiado tempo. – admitiu, levantando a cabeça e encarando os dois rapazes. – Mas vocês não deviam ter feito isto atrás das nossas costas. Eu sei que pensam que nós não vos percebemos, especialmente tu, querido Wild. – ela falava, esboçando um meigo sorriso. – Mas vocês não nos podem esconder este tipo de coisas.

            - O que eu e a Susan vos queremos dizer é que, da próxima vez, devem consultar-nos primeiro. – concluiu o panda.

            - Sim. Por favor, não nos escondam mais nada.

            - Eu prometo, mãe. – respondeu Wild, de forma sincera e angelical, como só ele sabia. – Daqui para a frente, não irão existir mais segredos entre nós.

            - Acho que têm razão. – assentiu Peter. – Esconder coisas de vocês é bastante difícil mesmo.

            O casal riu-se e entreolhou-se, antes de se voltar para os rapazes novamente.

            - Sendo assim, o vosso castigo terminou.


            O corpo de Carol parecia flutuar pelas calmas águas do pacifico lago da Wild Area. Wild, apenas de calções de banho, agarrava-se ao corpo da Pokémon que lhe mostrava as belezas da profundeza daquele local. Várias rochas e corais marinhos serviam de habitat para diferentes espécies de criaturas aquáticas, como Magikarp, Feebas ou Wishiwashi, que coabitavam de forma calma e civilizada.

            No entanto, nenhuma daquelas criaturas conseguia despertar a atenção de Wild, como Carol fazia. A beleza e subtileza da serpente marinha continuavam a hipnotizar o rapaz que, naquele momento, observava atentamente as escamas do corpo de Milotic, que brilhavam com os raios de sol, à medida que a criatura se aproximava da superfície do lago.

            Wild olhou em volta, captando, mais uma vez, a beleza daquele lugar magnífico. O lago espalhava-se por longos metros à sua volta e, numa das suas margens, George, Rory e Peter tomavam banhos de sol.

            Carol aproximava-se lentamente do grupo enquanto que Wild, sentado sobre o seu corpo, penteava os seus cabelos claros, compridos e molhados.

            - Vejam quem está de volta! – exclamou Rory, ao mesmo tempo que chapinhava na água.

            - Como foi essa viagem? – perguntou George, que supervisionava a filha mais nova.

            - Ótima! Linda! Esplêndida! Espetacular! – respondeu Wild fascinado.

            - Foi uma bela aventura! – gargalhou Carol.

            - O que viste, companheiro? – perguntava Peter curioso.

            - Imensos corais e plantas marinhas! E lindos Pokémon aquáticos! – afirmava o rapaz excitado. – Mas o meu favorito foi um Mantine gigante que passou mesmo por cima de nós!

            - Existem imensas espécies de Pokémon neste lago. É por isso que eu gosto tanto de viver aqui. – explicou a serpente.

            - E esta paisagem é maravilhosa!

            Todos acenaram e concordaram com a pequena Wynautt. À frente do grupo, o lençol de água estendia-se por vários longos metros. Haviam vários grupos de diferentes espécies de Pokémon que brincavam ao longo do lago, mas um em particular chamou à atenção do pequeno Wild. Vários Vanillite que brincavam alegremente acabavam de ser atingidos por algum ataque, deixando-os gravemente feridos.

            - O que é que se está ali a passar? – questionava Wild, que permanecia sentado sob o corpo de Carol, ainda dentro de água.

            - Saiam do lago! – gritou George.

            Naquele momento, o corpo de um Pokémon surgia atrás de várias rochas, que se situavam à beira do lago. O seu corpo assemelhava-se a uma aranha amarela com quatro patas e um bigode. Na sua cabeça, dois olhos grandes eram acompanhados por quatros mais pequenos e, ao longo do seu corpo, vários apontamentos em azul e roxo contrastavam com o amarelo.


            Galvantula disparou um potente Electro Web na direção de Carol e Wild, que escaparam para fora da água mesmo a tempo. Wild rebolou pelo solo, mas logo se levantou, certificando-se que Milotic estava estável e em segurança.
                                                                                           
            - Tiveram saudades minhas? – gritou o Pokémon, aproximando-se do grupo, mantendo, no entanto, uma certa distância dos adversários.

            Wild deixou o queixo cair, revelando o estado de surpresa por reencontrar aquela figura tão marcante na sua vida.

            - Não acredito…

            - Nate. – murmurou Peter, cerrando o punho.

            - A cicatriz fica-te bem. – murmurou a aranha, deixando escapar uma gargalhada.

            - Quem é este? – perguntou Carol, visivelmente confusa.

            - É o Nate. O rival do Wild, que o atacou e lhe fez aquela cicatriz na barriga. – explicou Rory.

            - Como te atreves a aparecer aqui!? – gritou George, a fúria era visível nos seus olhos. – Não te aproximes da minha família novamente!

            - Ou então o quê? – provocou a aranha.

            - Ou então eu…

            - Deixa isto comigo George. – murmurou Peter, olhando por cima do ombro. – Eu mesmo vou resolver este problema.

            Bunnelby voltou-se para a frente, encarando o corpo de Galvantula. Nate observava-o também atentamente. Ali, naquele momento, os dois Pokémon, finalmente frente a frente, preparavam-se para colocar o seu poder e força à prova. Se, por um lado, Peter queria fazer jus á sua promessa de vencer finalmente Nate, este queria mostrar a todos o seu novo poder na sua nova forma evoluída.

            - Não vais escapar desta vez.

            Peter lançou-se na direção do Pokémon, preparando-se para o atacar com um Double Slap, mas Nate fora mais rápido, escapando facilmente ao ataque e contra-atacando com o seu Fury Cutter. Bunnelby saltou por cima do corpo do seu adversário, esquivando-se do seu ataque e preparando uma forte investida com o Quick Attack. Galvantula acabou atingindo, mas não parecia muito afetado com o choque físico.

            - Tanto tempo depois e continuas o mesmo fracote. – murmurou Nate.

            - E tu continuas o mesmo infeliz e arrogante de sempre!

            Bunnelby deixou que os seus sentimentos tomassem controlo do seu corpo e saiu disparado na direção de Galvantula, atingindo-o em cheio com o seu novo ataque, Take Down. O choque provocado pelo embate fez com que os dois Pokémon fossem projetados para lados opostos.

            - Agora sim. – gargalhou Nate. – É disso que estou a falar!

            Uma pequena esfera de eletricidade começou a ser formada à frente da boca de Galvantula, aumentando lentamente de tamanho, até ser disparada contra o corpo de Bunnelby, que, sem tempo para se esquivar, foi alvo da Electro Ball do adversário.

            O Pokémon, projetado por alguns metros, caiu no chão ferido, mas ele não estava pronto para desistir tão cedo. Levantou-se do chão, calmamente, pronto para continuar o combate.

            - Eu sei que tu consegues, amigo! – incentivava Wild, que observava a batalha atentamente.

            O coelho sorriu e acenou ao seu companheiro, recordando todos os momentos que vivera com ele até então. Aquele era o momento de mostrar o quanto gostava e se preocupava com ele, vencendo o seu adversário em comum.

            As orelhas de Peter começaram a formar uma aura de cor castanha, que rapidamente se fundiu em várias bolas de lama, lançadas na direção de Nate. A aranha tentou esquivar-se do ataque, mas as quantidades de bolas lançadas na sua direção eram demasiadas para ele escapar ileso. O Pokémon acabou por ficar preso num monte de lama formada pela técnica Mud Shot.

            - Oh não. – sussurrou, verificando que, de facto, estava ali preso.

            - Acabou, Nate!

            Peter voltou a preparar um potente Take Down, saindo disparado na direção do seu adversário que, sem forma de escapar, foi atingido em cheio. O seu corpo foi arrastado pela lama e rebolou pelo chão, sujando todo o seu pelo amarelo com a sujidade da terra.

            Os ferimentos de Nate eram visíveis para todos os presentes, mas, mesmo assim, o Pokémon ergueu-se lentamente do chão, levantando o seu olhar até aos corpos de Wild e Peter, que o observavam em silencio. Naquele momento, o Pokémon tremia e parecia revelar, pela primeira vez, a sua fraqueza e insegurança.

            - Desculpem.

            Fez-se silencio. Nenhum dos presentes queria acreditar naquilo que ouvira. Uma figura tão temível e forte como Nate mostrava, finalmente, o seu lado mais íntimo.

            - O que é que tu disseste? – questionou Wild.

            - Estou farto destes jogos estúpidos. – admitiu Nate. – Toda a nossa disputa é ridícula e sem sentido algum.

            - Como assim? Foste tu que nos atacaste e iniciaste tudo isto! – retorquiu Peter.

            - Vocês não sabem, mas eu já vos observo há muito tempo. Naquele dia, quando tudo começou, eu já observava a vossa família há várias semanas. Mas eu estava farto de ser uma simples sombra que vocês não sabiam que existia. Então intrometi-me no vosso jogo.

            - O que estás a dizer? – Wild parecia confuso.

            - Tu acertaste-me com a bola porque eu assim o queria. Eu conseguia escapar perfeitamente… mas eu queria ser atingindo.

            - Porquê?

            - Eu queria brincar com vocês. – confessou. – Só isso.

            - Então porque é que atacaste o Wild? – perguntava George.

            - Eu não sei. Foi o mesmo instinto, penso eu. Toda a vontade de querer ser vosso amigo transformou-se numa espécie de ódio.

            - Isso é uma palavra muito forte… - murmurou Rory.

            - Todos vocês pertencem a um grupo, a uma família. Têm alguém que goste e cuide de vocês. Eu nunca tive isso em toda a minha vida. – admitiu, com um olhar brilhante. – Tudo o que eu queria era ter o que vocês têm. Fazer parte da vossa família.

            Fez-se silêncio e o único som que se ouvia agora era o choro de Nate. Um choro de tristeza, mas também de alívio, por revelar toda a verdade àquele grupo que ele tanto admirava secretamente. Tudo o que ele queria era ser um deles. Poder sentir-se amado e integrado num grupo com outros Pokémon.

            - Tu és muito especial, Wild. Eu nunca quis magoar-te ou deixar-te essa cicatriz. Com certeza já passaste por muito na vida.

            - Nate…

            - Nem todos os seres humanos têm a sorte de encontrar Pokémon que os amem como a tua família o faz contigo. Nem mesmo treinadores especialistas. Tu és um rapaz sortudo. – disse, em forma de despedida. – Eu espero que saibas dar valor a isso.

            A aranha preparava-se para virar costas e abandonar o local, estava tudo dito, finalmente. Wild e os outros elementos do grupo observavam o Pokémon em silêncio. Todos eles sentiam um misto de emoções por Nate. Se antes ele era visto como uma criatura temível e malvada, então agora todo o seu ódio se transformara em mera fraqueza.

            - Espera!

            Wild correu na direção de Nate, que se surpreendeu com o gesto do rapaz, parando a meio do seu caminho.

            - Tu não tens de ficar sozinho. – murmurou o menino. – Porque não vens connosco? – perguntou, de forma inocente.

            - Eu não posso fazer isso. Já magoei demasiado a tua família.

            - Podes, pelo menos, vir-nos visitar. – a voz de George fez-se ouvir, enquanto se aproximava dos dois.

            - Porque estão a ser tão simpáticos comigo? Eu ataquei-vos e ameacei a vossa segurança!

            - Porque nós somos assim. – disse Rory, aparecendo também acompanhada de Peter e Carol.

            - Bons rivais também são bons amigos. – afirmou o coelho, esboçando um pequeno sorriso.

            - Para a próxima, tenta só deixar os pequenos Vanillite de fora da tua vingança. – riu Milotic. – Eles não têm culpa de nada…

            O grupo deixou escapar uma gargalhada em uníssono. Nate observou-os com atenção. Era aquilo que ele queria. Um grupo de amigos, uma família que se preocupasse realmente com ele. E parecia que isso estava mais perto de acontecer do que ele imaginava.

            - Têm a certeza? – voltou a perguntar.

            - Sim! – insistiu o rapaz.

            - Se tu és importante para o Wild, então deves ser importante para todos nós. – admitiu George. – Afinal, é ele quem nos mantem a todos unidos. Verdade?

            Nate calou-se e concordou com a cabeça. De facto, era um simples rapaz quem mantinha um grupo de diferentes espécies de Pokémon unido. A forma como uma mera criança conseguia despertar várias relações e sentimentos entre múltiplas criaturas distintas era algo que deixava a pensar qualquer um.

  

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